Como se tudo fosse frevo e não existisse saudade, nem impunidade, nem injustiça e nem disfarçatez, entramos em ritmo
unificado, como se cada casa não abrigasse uma realidade própria.
Há muito já não diferenciamos a cultura do mercado, um relacionamento por demais complexo, completo e imbricado esses dois firmaram!
Contudo, cada muro, cada porta, certamente esconde um fardo.
Alagoas é terra de famílias que financiam o crime e outras que se tornaram vítimas.
Havendo sempre o alerta para quem pode entrar na última e temível categoria, esta na qual eu me encontro.
Assumo assim que na minha casa a música continua sendo este grande silêncio sublimando a ausência irreparável do jovem que não via maldade nem mesmo nos maus.
Carnaval sem alegria, porém, não significa vida vazia.
Por mais que o objetivo do crime seja esvaziar quem luta, nem mesmo a força bruta pode matar a subjetividade.
Mesmo quando mata o corpo a alma foge, liberta e ampla para as plenitudes desconhecidas, portanto, fora do controle dos criminosos.
Mesmo sem a música, o trabalho segue, o pensamento opera, os dedos ágeis teclam, a vida não tem uma única configuração.
Este carnaval não tem bloco para o meu protesto, nem expressão para a minha poesia. Absorvo a vida sob a força dos ângulos esquecidos, os inusitados, que por essa razão tornaram-se fortes.
Em muitos peitos maternos alagoanos a folia arrefeceu e a saudade vigora nessa hora.
Os filhos arrancados à força das nossas vidas materiais foram eternizados em nossos gestos, pensamentos e lutas.
O crime perde a força quando a vida se amplia em mensagens como essa, revelando o que estão fazendo das famílias alagoanas, mas também dizendo a todas elas, que a luta contra a impunidade e a omissão é uma obrigação nossa.
Não importa se os carnavais para nós jamais sejam os mesmos.





