Sou jornalista. Adoto como uma das regras, na cobertura dos casos de crimes sexuais, a posição dos órgãos de investigação. Porque teoricamente eles têm mais elementos que a imprensa para conclusões.
A imprensa é mais imediata, como as redes sociais. E denúncias deste tipo precisam ser respaldadas por policiais, promotores de Justiça, juízes, desembargadores etc etc. Em resumo: mais gente, mais mãos preocupadas em colher detalhes, dirimir dúvidas.
No passado era pior, para as vítimas. O tempo e a enorme quantidade de denúncias, porém, dão mais segurança, estímulos para mais relatos, provas, diligências.
Assediadores são condenados publicamente e retirados de circulação. Sentimos que a prisão é pouco. E é justo exigir mais do Judiciário, mais dos investigadores, mais da sociedade.
O Brasil escravocrata e escravagista tem como um dos seus pilares os estupros, os filhos rejeitados dos patrões, as vítimas tratadas como messalinas, sempre culpadas. Evas corrompendo Adões, unidas a serpentes.
Avançamos, contudo.
Um promotor alagoano foi acusado por familiares de crimes sexuais. As investigações do Ministério Público endossaram e ele foi condenado.
Coroinhas acusaram padres de crimes sexuais em Alagoas. A Justiça endossou e o Vaticano, também.
A condução apressada da polícia e a sanha de rapidez a qualquer custo da imprensa destruíram a reputação e as vidas dos diretores da Escola Base em São Paulo, há exatos 30 anos.
Alysson Mascaro, professor da USP, é acusado de assédio e abuso sexual. Alunos falaram do caso ao The Intercept. O portal alega que os depoimentos foram gravados também em vídeos, com documentos e prints de mensagens atribuídas a Alysson, através de um celular também atribuído a ele.
O professor nega. Um detalhe chama a atenção: “não se pode ignorar que todo o contexto da reportagem foi construído por contas falsas, que operam com o objetivo expresso de macular a honra de Alysson Mascaro”, diz a defesa.
Investigações e o tempo dirão quem é quem nessa história. Mas é bom lembrar: até onde nós, jornalistas, estamos preparados para apurar/investigar detalhes sobre crimes sexuais e chegar ao âmago deles- e não apenas as particularidades mais picantes, conduzindo a opinião pública a um julgamento o mais rápido possível?
Os ecos da Escola Base estão, sempre, por aí.





