Após as eleições, o governador Paulo Dantas (MDB) baixou uma ordem ao secretariado: cortar despesas de custeio das pastas, entre 20% e alguns casos, 50%. Isso para continuar pagando em dia os salários, além do 13º.
Acostumado a antecipar os vencimentos dos mais de 100 mil trabalhadores públicos estaduais, Dantas enfrentou perrengue em outubro. Quis, mas não conseguiu, pagar antes de 28, dia do servidor, que só viu a cor do dinheiro em 30. Por pouco, o salário não foi pago no início de novembro.
O governo não tratou o caso como atraso, mas como uma previsão normal.
Não foi.
Uma das teorias que circula internamente: Dantas prepara antecipadamente a máquina estadual para acelerar a entrega de obras antes de 2026, quando haverá eleições estaduais e se espera que o ministro dos Transportes Renan Filho dispute o governo porque o prefeito de Maceió JHC (PL) deixará o executivo municipal e arriscará o comando estadual.
Fato é que os cortes desanimam lideranças políticas, de olho em secretarias que lhes projetem permanecer mais tempo na roda gigante da política eleitoral.
Dantas se prepara para acomodar ex-prefeitos que conseguiram eleger sucessores. Aparecem na lista: Kil, de União dos Palmares; Júlio Cezar, de Palmeira dos Índios; Renatinho, de Pilar; Cacau, Marechal Deodoro. Todos são candidatos a alguma coisa daqui a dois anos e uma secretaria com dinheiro e visibilidade pode ser fundamental para atrair mais atenção. E votos.
Ao mesmo tempo, o interesse não é tão grande assim e existe até desconfiança. Uma fonte lembra que o então secretário de Infraestrutura Rui Palmeira, eleito vereador em Maceió, enfrentou atrasos orçamentários e precisou recorrer à Secretaria da Fazenda para pagar fornecedores.
Um destes constrangimentos foi tornado público no final de fevereiro. O consórcio Hidroconsult/Engeconsult suspendeu as obras do trecho 5 do Canal do Sertão por atraso de pagamento. Na época, Rui ainda era secretário e foi avisado da suspensão em 16/1. As obras pararam em 23/2.
O consórcio não recebia os repasses financeiros desde fevereiro de 2023. Somando os valores dos serviços prestados mais pedidos de reajustes nas medições, a dívida ultrapassava R$ 2,5 milhões.
Quando o caso veio a público, o governo liberou o dinheiro. “Ninguém quer assumir para ficar indo todos os dias para a Secretaria da Fazenda em busca de dinheiro”, lembra uma fonte.
O vice-governador Ronaldo Lessa (PDT) sentiu isso na pele. Em 1/3/2019 assumiu a Secretaria de Agricultura a convite do então governador Renan Filho. Foi uma posse concorrida, cheia de promessas dele e de Renan. Em 27/6/2019- quase sete meses depois- deixou o cargo. Os cortes de gastos promovidos na época por Renan atingiram até o cafezinho.
Lessa, então, quis disputar a Prefeitura de Maceió. Foi desencorajado pelo PDT nacional, fechando acordo com o então deputado federal JHC, então no PSB. Virou vice-prefeito. Também se sentiu desprestigiado e foi convidado como candidato a vice de Paulo Dantas.
Ainda não reclamou publicamente da falta de dinheiro, mas ouve reclamações. Quando assumiu interinamente o governo em 1/11, funcionários da Universidade Estadual de Ciências da Saúde (Uncisal) pediram socorro. Enfrentavam problemas orçamentários. Nesta semana, em 19/11, os professores fizeram manifestação cobrando concurso público. O deputado Cabo Bebeto (PL) se solidarizou com o protesto. “A saúde é a pior pasta do governo Paulo Dantas, e o que nós podemos fazer é cobrar. Espero que a faculdade não seja prejudicada, principalmente depois de obter um resultado de excelência”, disse.
“O governador vem tendo dificuldade na condução da máquina. As secretarias enfrentam cortes, as reclamações são muitas”, disse uma fonte.
Paulo Dantas não comenta publicamente os problemas e procura demonstrar que Alagoas se prepara para receber investimentos externos. No inicio do mês viajou a Lisboa e Barcelona. “Passamos por Lisboa e Barcelona e falamos sobre investimentos, energia renovável, intercâmbio tecnológico e muito mais”, resumiu o governador. Dias antes, em 29/10, um curto circuito deixou o campus da Universidade Estadual de Alagoas (Uneal), em Maceió, às escuras por dias. “Falta de investimento e estrutura”, resumiu um aluno.





