Maria Alice dos Santos- é professora da Rede Estadual de Pernambuco e da Rede Municipal em Alagoas, mestranda do Programa de Mestrado Profissional Em Letras- PROFLETRAS-UFAL
PAISES EM A OBRA FOI TRADUZIDA
Dinamarca, Holanda e Argentina(1961); França. Alemanha (ocidental e Oreintal), Suécia, Itália, Checoslováquia, Romênia, Inglaterra, Estados Unidos e Japão1962); Polônia (1963); Hungria (1964); Cuba (1965) e entre 1962 e 1963 na então União Soviética.
A obra Quarto de despejo: um diário de uma favela(1960) de autoria de Carolina Maria de Jesus, mulher, negra periférica, que ousa erguer a voz a através de sua escrita marcada por resquícios de oralidade, onde, ela mesma é a narradora-personagem, funda em primeira pessoa o sujeito negro periférico na literatura brasileira.
É um livro que oportuniza uma fruição estética para além dos cânones literários, que é composto, em grande maioria, por escritores homens, brancos e de classes privilegiadas, responsável pela construção e reforço de estereótipos discriminatórios com as pessoas negras.
A obra apresenta a condição profunda da marginalização, desnudando as várias faces da desigualdade racial no Brasil, um debate necessário para construção de uma consciência discursiva-político-racial abrindo horizontes emancipatórios de nossos educandos/as.
Carolina, reflete sobre a sua condição e a dos seus pares, e “encontrando sua voz” denuncia as desigualdades, as quais são submetidos/ as ,vejamos trechos da obra:
“ 1- Em 1948, quando começaram a demolir as casas térreas para construir os edifícios, nós, os pobres que residíamos nas habitações coletivas, fomos despejados e ficamos residindo debaixo das pontes. É por isso que eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trastes velhos.”
2 – Escrevo a miséria e a vida infausta dos favelados. Eu era revoltada, não acreditava em ninguém. Odiava os políticos e os patrões, porque o meu sonho era escrever e o pobre não pode ter ideal nobre. Eu sabia que ia angariar inimigos, porque ninguém está habituado a esse tipo de literatura. Seja o que Deus quiser. Eu escrevi a realidade.
3 – As crianças ricas brincam nos jardins com seus brinquedos prediletos. E as crianças pobres acompanham as mães a pedirem esmolas pelas ruas. Que desigualdades trágicas e que brincadeira do destino.
Carolina Maria de Jesus(1960)
Carolina fala do que conhece por dentro, da sua realidade cotidiana, do sujeito marginalizado pelo “progresso” da metrópole, jogado no “quarto de despejo”, ou seja, a favelização urbana, processo de racialização da pobreza, da concentração violência. Oportunizar ao educando conhecer essa contra-narrativa é potencializá-lo construir saberes disruptivos agenciando-o à epistemologias outras.
Primeira obra traduzida de uma autora negra brasileira, que continua sendo até hoje lida pelo mundo, ainda é desconhecida por grande parte dos nossos professores e alunos das escolas brasileiras. Isso se deve ao fato de que o acesso à leitura literária, dentro e fora da escola, reflete o domínio econômico, e, ao longo dos séculos, os escritores negros e escritoras negras têm sido silenciadas/os, e de acordo com Miranda(2019,p.15) “é algo sistêmico no Brasil”, consequente à recepção e à fruição desses textos são negados aos/às educandos/as, fortalecendo o sistema de hierarquização racial estruturado desde princípio de nossa história.
A lei 10.069/03, que completa 20 anos este ano, assegura, que os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-brasileira serão ministrados no âmbito de todos o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras (BRASIL:2003). A sua efetivação constitui uma ferramenta importante para romper ideologias que estruturam a consciência dos autores educacionais na perspectiva da construção de um fazer pedagógico decolonial.
Quarto de Despejo, com sua linguagem fluida e de fácil assimilação, possibilita ao educando refletir de maneira multidisciplinar, questões da desigualdade social liga a raça, classe e o gênero, mobilizando e construindo novos conhecimentos ligados às diversas áreas do saber.
Deste modo, o maior Best Seller de autoria negra do Brasil, que também faz parte do Programa Nacional de Biblioteca na Escola-PNBE/2013, traduzido em mais de 18 países, precisa fazer parte do letramento estético literário dos brasileiros/as, descolonizando a imaginação e construindo imaginários de resistências onde o negro/a são seres intelectual e sujeitos do discurso, para que, como Carolina Maria de Jesus sejam protagonistas de suas histórias.
Referências:
BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”, e dá outras providências. D.O.U., 10 jan. 2003.
JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2019.
MIRANDA, Fernanda R. Silêncios pré-escritos: estudos de romance de autoras negras brasileiras (1859-2006). Rio de Janeiro: Malê, 2019.








