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Voz de mulher, um poema

Não sufoque minha voz de mulher

quando a esquina da noite secular

pede meu grito poético

nesta luta sem ecos.

Oprimida desde a infância

na negação deste corpo

vi por causa dele ser morta

a ontologia ancestral que me anima.

Meu corpo retalhado

superou as ferramentas do patriarcado

mas trouxe cicatrizes.

Não silencie minha voz de mulher

porque nela encerro a maternidade

ferida,

o choro desprovido de acolhida.

Em meu regaço navega a saudade

e restam pedaços do que constituiu a vida

que não acesso.

Meu olhar de mulher é vigiado

para que não enxergue, não se negue

aos vícios do patriarcado.

Seu machismo, ainda que travestido, é letal.

Quando não leva minha carne

me nega a mim mesma,

e pode matar de silenciamento minha alma.

Não retenha meus ímpetos em seus desejos.

Não me obrigue a dormir sem sonhar.

Minha voz de mulher é patrimônio da minha integralidade,

é canal que espraia esta dura verdade

de viver ressuscitada na luta de outras mulheres.

 

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