Categorizamos absolutamente todas as coisas e seus efeitos sociais, e desta maneira vamos construindo narrativas sobre ocorrências, criando muros ou pontes, com esse jeito humano de fazer a vida societária acontecer. Sem culpas ou perdões, é preciso deixar ser, no entanto, refletir, dialogar, debater e reconstruir ideias é um formidável atributo civilizatório para ser utilizado em favor de interesses majoritários (aqueles de alcance benéfico para além da individualidade).
É assim que compreendo o que hoje chamamos vulgarmente de “voto envergonhado”.
Ter sido eleitor de Bolsonaro e conseguir se envergonhar da escolha de quatro anos atrás, é tornar-se merecedor de aplausos! Sim, equívocos sobre caminhos políticos é muito comum em uma sociedade que distorce informações sobre partidos e finalidades partidárias, representações republicanas e conteúdo ideológico.
O eleitor também pode ser coagido a votar quando o sufrágio é tornado senha para participar de agrupamentos, de modo especial, quando este discurso recebe o toque religioso como cereja do bolo. Foi o que aconteceu vastamente através das falácias emocionadas de líderes cristãos mais o reforço dos disparos de whatsapp, alimentando um ufanismo asséptico e separatista, que alienava a candidatura ungida dos supostos horrores e vergonhas da política comum.
Essa gente crente elegeu Bolsonaro, juntando sua boa-fé aos interesses espúrios dos condutores de lucros nacionais e internacionais, sem o saber.
Foi também parte dessa gente que recebeu na vida cotidiana os efeitos imediatos da necropolítica. Esse brasileiro que acreditou na força das armas para defender sua família, viu seus filhos e filhas desempregarem, perdendo direitos trabalhistas, para serem submetidos a regimes de trabalho intermitentes.
Aqueles que conseguiram sair da nebulosa discursiva, perceberam o corte de verbas para o SUS e a retirada de apoio aos pacientes de câncer, uma verdadeira praga no seio do Brasil, pois deriva de multicausalidades e entre elas está o acréscimo de agrotóxicos em nossa alimentação, e o governo da morte liberou centenas deles.
Quem percebeu que a narrativa anticiência foi utilizada para cortar verbas direcionadas aos núcleos de pesquisa em nosso país, e para ser mantida abriu as portas do genocídio, deixando luto espalhado por praticamente todos os lares, tem motivo de sobra para sentir vergonha de um dia ter acreditado em alguém que nunca deixou de falar em morte nos palanques de 2018.
A lista de razões para essa vergonhosa escolha é legítima e longa, mas o intuito não é reforçar julgamentos, mas celebrar o acerto dessa hora, quando podemos nos juntar para reparar o erro como irmãos e irmãs de pátria.
Está óbvio que não votar em Bolsonaro e também não votar em Lula será manter o necro-representante no segundo turno das eleições presidenciais, que gerará muito mais desgastes, pois conhecemos o preço de ter uma nação com parte de seus eleitores assumindo uma identidade afim com a morte.
Cortar o mal pela raiz no primeiro turno é a redenção do voto envergonhado!
A única maneira de obter este alcance é eleger Lula para presidente do Brasil no próximo dia 02 de outubro.
De envergonhado a vencedor, o voto virado esperança nos fará outra vez povo irmão.
O passado servirá como experiência e aprendizado, na jornada democrática de um país que clama para ser reconstruído.





