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Vila dos Pescadores: da destruição simbólica à material

Percebi a tempo que antes de destruir o concreto, nos empenhamos em destruir o simbólico. Talvez para diminuir ou extinguir a comoção, angariar apoio passional dos desavisados, amainar a própria consciência, etc. Fato, porém, é nossa humana capacidade de levar à terra aquilo que não erguemos, o ser alheio, o corpo, o nome, a memória, a casa, a vida do outro.

A opressão espalhou um código brutal, dizendo que “manda quem pode e obedece quem tem juízo”, justificando toda destruição possível aos “desobedientes”.

Infeliz da nossa sociedade que desenvolveu repúdio total à drogadição, tolerando a mais agravante causa dos desmandos sociais do nosso tempo, a corrupção. Calma! Não estou me referindo à pessoas batendo em panelas nas janelas (rima feia!), sim à pessoas reelegendo prefeitos envolvidos na Operação Gabiru, mantendo nos parlamentos inúmeros acusados de desviar dinheiro público das finalidades originais, para enriquecer.

Os maus políticos que nós temos, são em geral responsáveis por inúmeras formas de morte, mas isso não nos arrasta ao repúdio, continuamos elegendo, seja por venda de voto ou barganhas relacionais.

Usamos então, a justificativa da drogadição para aplaudir a morte de jovens. Ao sabermos que alguém foi assassinado, a primeira pergunta é essa: “envolvido com droga?” Se a resposta for afirmativa, respondemos com um “Ah…” e sequer lamentamos o ocorrido. Ou seja, legitimamos a morte matada! Mas mesmo se a pessoa não for envolvida com drogas, basta sair por aí espalhando isso, que a aceitação é garantida.

Daí, nasce a prática homicida do Estado, que dizima pobres em nome de uma “limpeza social” que os próprios pobres aceitam. Obviamente, com a conivência dos poderes, que por razões ainda mais vis, como separatismo de castas, classe e discriminação sociocultural, admite a execução.

Assim, entendemos a união das cúpulas na garantia da demolição da Vila dos Pescadores, no bairro antigo de Jaraguá. Uma comunidade destruída simbolicamente – favela, boca de fumo, local de tráfico – até desembocar na destruição material.

Em 17 de junho de 2015 um canto surdo envolveu Maceió em uma imensa e sentida dor ancestral.Mas só pôde ouvi-lo os que permanecem humanos, e ainda não barganharam o bom senso, nem desistiram do sentimento. Um massacre desproporcional, arrancando crianças dos seus parcos referenciais de lar, idosos, donos da história do lugar, homens e mulheres da beira do mar, para jogar em qualquer lugar.

Sim, há uma sensação de impotência, mas não será a primeira vez que o Poder ergue suas armas contra o povo, nestas terras. Indigno, porém, é ser representante dessa façanha lastimável, executor também, de vidas.

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