César Felício- Valor Econômico
Uma suspeita de tráfico de influência para a escolha do fornecedor das notas de pesos argentinos para a Casa da Moeda deve liquidar com as perspectivas políticas do vice-presidente da Argentina, Amado Boudou, que chegou a ser visto como uma possível alternativa dentro do kirchnerismo na sucessão de 2015, caso a presidente Cristina Kirchner não tente mudar a Constituição para obter um novo mandato.
O juiz federal Daniel Rafecas autorizou o cumprimento de um mandado de busca e apreensão em um apartamento de Boudou, no luxuoso bairro de Puerto Madero, zona sul de Buenos Aires. O apartamento, que foi residência de Boudou, estava atualmente alugado para Fabian Carosso Donatiello, sócio do empresário Alejandro Vandenbroele. Vandenbroele é o controlador da Companhia Sul-Americana de Valores, a sucessora legal da gráfica Ciccone, que teve a falência levantada em novembro de 2010 e pouco depois ganhou o contrato da Casa da Moeda argentina, substituindo como fornecedora a Casa da Moeda brasileira.
Em novembro de 2010, Boudou era o ministro da Economia e responsável pela administração da Casa da Moeda. No começo deste ano, a ex-mulher de Vandenbroele o acusou publicamente de ser testa de ferro do atual vice-presidente. Segundo divulgou ontem a rádio Mitre, do grupo oposicionista Clarín, os agentes policiais encontraram o apartamento de Boudou desocupado. O vice-presidente estava ontem em Bariloche, acompanhando Cristina Kirchner em um evento oficial.
O escândalo, que está na mídia argentina desde o início do ano, colocou Boudou em atitude defensiva e o tirou da condução da política econômica, espaço ocupado pelo vice-ministro da Economia, Axel Kicillof, e pelo secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno. O ministro Hernán Lorenzino, ligado a Boudou, nunca teve papel protagonista.
Para o cientista político Julio Burdman, da consultoria Analytica, o primeiro resultado concreto da polêmica deve ser o fim das perspectivas eleitorais de Boudou. “Ao contrário do que ocorreu com os últimos seis vice-presidentes, Boudou não tinha expressão eleitoral anterior e dependia fundamentalmente do seu vínculo com Cristina. Em nove anos de poder, Cristina jamais foi solidária com personagens envolvidos publicamente em escândalos. Basta lembrar o caso da ex-ministra da Economia Felisa Miceli.” A ex-ministra citada por Burdman foi demitida em 2007, horas depois de ser encontrada em seu gabinete uma mala cheia de dólares em espécie.
Economista de 48 anos, Boudou cultiva uma imagem jovem. Gosta de se fotografar em motocicletas Harley Davidson e aparecer, guitarra em punho, em shows de uma banda pop chamada La Mancha de Rolando. De origem política na União de Centro Democrático, partido conservador que desapareceu nos anos 90, não é vinculado ao peronismo. Ganhou notoriedade em 2008, quando, diretor da Anses, o INSS argentino, coordenou a estatização dos fundos de pensão privatizados no governo de Carlos Menem (1989-1999). No comando da política econômica de Cristina, era uma voz moderada, tendo sido responsável pelos anúncios de retirada parcial de subsídios logo após a eleição.







