Vapor de Cachoeira não navega mais

O vapor de Cachoeira tinha muitos dos defeitos e mais poder que alguns partidos políticos

Fernando Gabeira – Estadão

O vapor de Cachoeira do verso de Caetano Veloso é uma lembrança nostálgica de  um navio que ligava Salvador ao Recôncavo Baiano. Lançado em 1819, um grande  feito para a época, o vapor de Cachoeira não volta nunca mais. Já o de Carlinhos  Cachoeira apenas sofreu uma avaria. Pode voltar em forma de submarino ou  qualquer embarcação anfíbia.

O vapor de Cachoeira tinha muitos dos defeitos e mais poder que alguns  partidos políticos. Tinha bancada parlamentar, acesso e contatos no governo,  preenchia cargos e influenciava a promoção de coronéis da Polícia Militar. Os  fragmentos de gravações indicam também que Cachoeira tinha algo mais do que os  partidos pequenos: um esquema de informação próprio que vazava escândalos para a  imprensa, com a esperança de moldar imagens na opinião pública.

Pode-se argumentar que, ao contrário dos partidos, Carlos Cachoeira não tinha  um programa. Não havia nada escrito porque não precisava. Programas, dizia o  velho Brizola, também podem ser comprados. Cachoeira nunca se interessou em  comprar um. Mas é exatamente a prática cotidiana no vácuo de propostas políticas  reais que torna o partido de Cachoeira um novo tipo de ator no cenário nacional.  A forma como articulou a bancada de Goiás, suprapartidariamente, é inédita. O  projeto de regulamentação da loteria que lhe interessava partiu de um senador,  foi relatado por um deputado e ainda dependeria da supervisão de Demóstenes  Torres.

Num único momento parlamentar, senti a bancada goiana atuar em conjunto. Foi  para derrubar um projeto de Eduardo Jorge e meu que proibia o amianto no Brasil.  Era um movimento contrário ao que penso, mas não posso negar seu caráter  democrático nem a preocupação legítima com os interesses de seus eleitores.  Goiás tem mina de amianto em Minaçu e os deputados temiam o desemprego e o  declínio econômico na cidade.

Não se conhece, fora de Goiás, a extensão da influência de Cachoeira. A  verdade é que nenhum órgão de imprensa foi lá conversar com as pessoas, sentir a  atmosfera, indagar sobre as forças típicas do Estado. Confesso que tenho mais  perguntas que respostas. Um esquema tão intrincado e complexo merece um estudo  maior, que só a íntegra das gravações pode esclarecer – ou, ao menos, indicar  pistas.

E o Demóstenes, hein? É a pergunta que todos fazem na rua, resignados com o  peso do argumento de que todos os políticos são iguais, até mesmo os que incluem  a dimensão ética em sua atuação parlamentar. O desgaste que ele produziu na  oposição é arrasador. Não se limita ao célebre “são todos iguais”. Avança para  outra constatação mais perigosa: se os críticos são como Demóstenes, toda a  roubalheira denunciada por eles não passa de maquinação. A sincera constatação  popular “são todos iguais” torna-se um dínamo para múltiplas conclusões  políticas. A mais esperta delas é: logo, são todos inocentes.

Depois de tudo o que Demóstenes fez, a partir do fragmentos ouvidos, eram  inevitáveis as mais variadas repercussões no cotidiano político, em ano de  eleição.

O esquema, no conjunto, precisa ser conhecido e pode ser iluminado por uma  CPI. Carlos Cachoeira tinha influência nos governos de Goiás e de Brasília,  detinha um poder regional. Era bem mais que um bicheiro. Apresentá-lo assim,  desde o início, não combinava com o tipo clássico consagrado pela ficção: camisa  aberta no peito, colar de ouro, mulatas deslumbrantes, amor à sua escola de  samba. Cachoeira, além dos negócios legais, já usava a internet como ferramenta.  Organizava loterias federais, disputava a bilhetagem eletrônica no transporte  coletivo e mantinha um site de jogos, hospedado na Irlanda.

Ele usa muito melhor os instrumentos do seu tempo do que os bicheiros  tradicionais, com seus anotadores sentados em caixotes, esperando a chegada da  polícia em nova campanha contra o jogo do bicho, dessas que sempre morrem na  próxima esquina, ou na próxima manchete. Os bicheiros sempre desconfiaram da  legalização porque tinham medo da pesada concorrência que as novas  circunstâncias trariam.

Empresário da era eletrônica, Cachoeira tinha um partido sem programa e  decidiu legalizar seu negócio de forma que bicheiros tradicionais nem sequer  sonhavam: escrevendo a lei, mobilizando a sua bancada, cuidando da tramitação,  dos detalhes formais, garantindo a supremacia no futuro.

Cachoeira tem negócios clandestinos e legais. A maneira como se organizou  para tocá-los é típica do pragmatismo de muitos partidos políticos: buscar a  proximidade com o governo. Sua proposta era deslocar Demóstenes para o PMDB e  aproximá-lo do Planalto. Houve algumas conversas sobre isso nas eleições de  2010. Para Demóstenes seria a morte política por incoerência, talvez mais suave  que o atropelamento súbito pelos fatos.

Apesar de sua prisão e da desgraça de Demóstenes, Cachoeira continuou  desdobrando a tática de aproximação. Tanto ele como Demóstenes escolheram  advogados que, além de sua competência, são amigos íntimos do governo. Uma  escolha desse tipo nunca é só técnica. É também política. Representa uma  bandeira branca de quem não busca conflitos e anseia por uma saída controlada  para um escândalo que ameaça governos do PSDB e do PT.

Leis são como salsichas, é melhor não ver como são feitas. Essa célebre frase  atribuída a Bismarck é uma constante na crítica aos Parlamentos. Em caso de um  escândalo de intoxicação alimentar, é importante saber como foram feitas. Se  Carlinhos Cachoeira foi capaz de criar suas leis, aprovando-as no âmbito  estadual e levando-as à esfera nacional, o que não podem outros grupos poderosos  e articulados?

Essa vulnerabilidade da democracia, de um modo geral, se torna uma  inquietação alarmante no caso singular do Brasil. O momento aponta para a  desaparição dos partidos programáticos e abre o caminho para os núcleos de todo  tipo, principalmente o partido de tirar partido.

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