Universidade e inserção social

Característica lamentável em nossas universidades, hoje, é a falta de sinergia. Carecem de projeto pedagógico estratégico.

Frei Betto-escritor-Correio Braziliense

Por  que dizemos universidade e não pluriversidade? Trata-se de uma  instituição que comporta diferentes disciplinas. Multicultural, nela  coabita a diversidade de saberes. O título universidade simboliza a  sinergia que deveria existir entre os diversos campos do saber.

Característica  lamentável em nossas universidades, hoje, é a falta de sinergia.  Carecem de projeto pedagógico estratégico. Não se perguntam que  categoria de profissionais querem formar, com que objetivos, de acordo  com quais parâmetros éticos.

Ora, quando não se faz tal indagação é  o sistema neoliberal, centrado no paradigma do mercado, que impõe a  resposta. Não há neutralidade. Se o limbo foi, há pouco, abolido da  doutrina católica, no campo dos saberes ele nunca teve lugar.

Um  cristão acredita nos dogmas de sua Igreja. Mas é no mínimo ingênuo,  senão ridículo, como assinala o filósofo Hilton Japiassu, um mestre ou  pesquisador acadêmico crer no propalado dogma da imaculada concepção da  neutralidade científica.

Em que medida nossas instituições de en sino  superior são verdadeiramente universidades, ou seja, se regem por uma  direção, um enfoque dialógico, um projeto pedagógico estratégico? Ou se  restringem a formar profissionais qualificados destituídos de espírito  crítico, voltados a anabolizar o sistema de apropriação privada de  riquezas em detrimento de direitos coletivos e indiferente à exclusão  social?

A universidade, como toda escola, é um laboratório  político, embora muitos o ignorem. E a política, como a religião,  comporta um viés opressor e um viés libertador. Como diria Fernando  Sabino, são facas de dois legumes…

Um dos fatores de  desalienação da universidade reside na extensão universitária. Ela é a  ponte entre a universidade e a sociedade, a escola e a comunidade.

As  universidades nasceram à sombra dos mosteiros. Esses, outrora, eram  erguidos distantes das cidades, o que inspirou a ideia de câmpus, centro  escolar que não se mescla às inquietações cotidianas, onde alunos e  professores, monges do saber, vivem enclausurados numa espécie de céu  epistemológico. Como assinalava Marx, dali contemplam a realidade,  tranquilos, agraciados pelas musas, encerrados na confortável câmara de  uma erudição especializada que pouco ou nada influi na vida social.

Essa  crítica à universidade data do século 19, quando teve início a extensão  universitária. Em 1867, a Universidade de Cambridge, Inglaterra,  promoveu um ciclo de conferências aberto ao público. Pela primeira vez, a  academia abria suas portas a quem não tinha matrícula, o que deu origem  à criação de universidades populares.

Antonio Gramsci estudou  numa universidade popular na Itália. A experiência o fez despertar para o  conceito de universidade como aparelho hegemônico que se relaciona com a  sociedade de modo legitimador ou questionador. Para ele, uma  instituição crítica deveria, por meio dos mecanismos de extensão  universitária, produzir conhecimentos acessíveis ao povo.

Na  América Latina, antes de Gramsci houve o pioneirismo da reforma da  Universidade de Córdoba, em 1918. A classe média se mobilizou para que  as universidades controladas pelos filhos dos latifundiários e pelo  clero se abrissem a outros segmentos sociais. Fez-se forte protesto  contra o alheamento olímpico da universidade, sua imobilidade senil, seu  desprezo pelas carências da comunidade do entorno.

A proposta de  abrir a universidade à sociedade alcançou sua maturidade, na América  Latina, no 1º Congresso das Universidades Latino-Americanas, reunido na  Universidade de San Carlos, na Guatemala, em 1949. O documento final  rezava: “A universidade é uma instituição a serviço direto da  comunidade, cuja existência se justifica enquanto desempenha uma ação  contínua de caráter social, educativo e cultural, aliando-se a todas as  forças vivas da nação para analisar seus problemas, ajudar a  solucioná-los e orientar adequadamente as forças coletivas. A  universidade não pode permanecer alheia à vida cívica dos povos, pois  tem a missão fundamental de formar gerações criadoras, plenas de energia  e fé, consciente de seus altos destinos e de seu indeclinável papel  histórico a serviço da democracia, da liberdade e da dignidade dos  homens”.

Sessenta e dois anos depois do alerta de San Carlos,  neste mundo hegemonizado por transnacionais da mídia mais interessadas  em formar consumistas que cidadãos, nossas universidades ainda não  priorizam o cultivo dos valores próprios de nossas culturas nem  participam ativamente do esforço de resistência e sobrevivência de nossa  identidade cultural — o que deveria se traduzir no empenho para  erradicar a miséria, o analfabetismo, a degradação ambiental, a  superação de preconceitos e discriminações de ordem racial, social e  religiosa.

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