Diário do Nordeste
A União Europeia (UE) anunciou ontem que apoia totalmente a posição da Espanha no questionamento da decisão do governo argentino de expropriar a companhia petrolífera YPF, controlada pela espanhola Repsol. “A Espanha tem nosso total apoio nessa questão”, afirmou a porta-voz da UE, Catherine Ashton.
“A expropriação (da YPF) envia um sinal negativo aos investidores internacionais e poderá prejudicar seriamente o ambiente para negócios na Argentina”, criticou Ashton em comunicado ao Parlamento Europeu.
Ela anunciou que o assunto foi incluído na agenda da reunião de cúpula dos ministros de Relações Exteriores da UE, que ocorrerá em Luxemburgo na próxima segunda-feira, 23.
A porta-voz da UE disse que ficou “alarmada” ao observar que a presidente Cristina Kirchner também se referiu a possíveis medidas adicionais contra empresas de telecomunicações e do setor bancário.
“Esse anúncio se soma a uma série de decisões problemáticas tomadas pela Argentina nos últimos anos relacionadas com restrições às importações e política de investimentos. O governo da Argentina deve garantir que irá cumprir com seus compromissos internacionais no tratamento e proteção dos investimentos originados na União Europeia”, alertou Ashton.
A decisão da presidente da Argentina, de expropriar a petrolífera Repsol-YPF, de capital espanhol e argentino, gerou forte desconfiança no setor privado, que teme iniciativas semelhantes do governo em outros setores da economia.
O ex-secretário de Energia argentino, Daniel Montamat, disse que agora as empresas se perguntam sobre “quem poderá ser a próxima” a ser nacionalizada.
Segundo os analistas, o temor se justifica porque muitas empresas privadas que prestam serviços públicos (muitas das quais já foram estatais) têm feito poucos investimentos no país.
O baixo investimento seria consequência dos baixos lucros no país. Com as tarifas públicas congeladas (que muitos empresários dizem ser uma medida populista do governo), os preços e as margens de lucro acabam corroídos pela alta inflação.
Entenda o caso
O governo da presidente Cristina Kirchner enviará ao Congresso um projeto de lei que declara soberania nacional sobre hidrocarbonetos na Argentina e declara o abastecimento de combustíveis de interesse público no país. O projeto também declara a petrolífera espanhola YPF uma empresa de utilidade pública.
Segundo o projeto de lei, anunciado na segunda-feira (16) em solenidade na Casa Rosada e convocada de surpresa pelo governo para o meio-dia de ontem, a YPF fica sujeita à expropriação de 51% de suas ações pelo governo. Esse montante de ações será compartilhado entre o governo federal, com 51% desse capital, e as províncias que integram a Federação de Produtores de Hidrocarbonetos, que ficarão com 49%.
A atual diretoria da petrolífera YPF já foi dissolvida e o comando já está nas mãos do governo argentino. O ministro do Planejamento, Julio De Vido, assumiu o cargo de interventor da YPF junto com o secretário de Política Econômica e vice-ministro de Economia, Axel Kicillof. As nomeações foram feitas por Medida Provisória, denominada Decreto de Necessidade e Urgência (DNU), assinada pela presidente Cristina Kirchner.
Cancelamento surpreende
Brasília. A Petrobras perfurou o número de poços que estava previsto no contrato com o governo argentino, disse a presidente da estatal brasileira, Graça Foster. A executiva, que participou de evento do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP), no Rio de Janeiro, se declarou surpreendida pelo cancelamento da concessão da empresa na província de Neuqém, no início deste mês.
A Argentina quer que as empresas estrangeiras invistam mais no país e anunciou esta semana que vai pedir ao Congresso a desapropriação da YPF, pelo fato de a empresa não estar investindo o que deveria no país.
Graça confirmou que na próxima sexta-feira se reúne com o ministro de Desenvolvimento da Argentina, Julio de Vido, para tratar do assunto, mas não antecipou qual seria a agenda entre os dois países.
“Fomos surpreendidos. Temos cumprido o programa exploratório mínimo e perfuramos seis poços como estava previsto”, disse Graça.
A Petrobras produziu em fevereiro deste ano 37,4 mil barris de petróleo e 44,9 milhões de metros cúbicos de gás natural por dia, ou 84,9 mil barris de óleo equivalente (boe). O volume é praticamente o mesmo e até menor do que há dois anos, quando produzia 90,8 milhões de boe por dia.
Soberania
O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, afirmou ontem que não tem nenhum temor em relação à atuação da Petrobras na Argentina, onde possui 79 postos de combustível e explora petróleo. “Nós prosseguiremos dentro da normalidade”, disse.
Lobão disse que a decisão da presidente Cristina Kirchner de tomar o controle de 51% da petroleira YPF, do grupo espanhol Repsol, é uma questão de soberania nacional.
“Eu não tenho nenhum temor, não vejo nenhuma motivação especial para isso (problemas com a Petrobras), mas se esta for uma política especial da Argentina também não temos nada a reclamar”, afirmou.








