Valor Econômico
A recessão está se aprofundando na zona do euro, como era previsto. A perspectiva para o terceiro trimestre, com base no índice dos gerentes de compras da Markit divulgado ontem, é de que o nível de atividades observado em julho e agosto é compatível com uma contração de 0,5% a 0,6% do PIB do bloco no terceiro trimestre, após recuo de 0,2% no segundo. A recessão atinge mais os países do sul da Europa, mas se aproxima das economias mais fortes, como França e Alemanha. Seu aprofundamento torna mais difícil e mais custosa a obtenção das metas fiscais, pela queda constante das receitas, e torna indispensáveis – e infrutíferos – novos cortes de despesas.
A economia alemã está sendo tragada pelos efeitos dos pacotes de ajuste nos países ao sul da Europa e pela austeridade fiscal nos demais países. O PIB da Alemanha, o motor da zona do euro, evoluiu apenas 0,3% no segundo trimestre, enquanto que, segundo o índice da a Markit, seu setor de serviços apresenta o menor nível de atividades em 39 meses. As exportações do país para a zona do euro estão em queda há 14 meses e a demanda por produtos alemães em todo o mundo caiu em julho. A França conseguiu até agora escapar da recessão, mas exibe pífio crescimento. A Itália, segundo projeções da OCDE, caminha para a recessão. Na Espanha, o PIB deve contrair mais do que o previsto, em 1,5%, e na Grécia o tombo será de espetaculares 7%, de acordo com previsões do Fundo Monetário Internacional.
A desvalorização do euro contribuiu nos últimos meses para abrir a válvula de escape das exportações, talvez o único fator de dinamismo em economias com alto desemprego, consumidores temerosos e bancos pouco dispostos a emprestar e com a sobrevivência ameaçada. Nos doze meses encerrados em junho, a zona do euro teve um superávit em conta corrente de € 49,9 bilhões, ou 0,5% do PIB, ante um déficit no período anterior de € 18,8 bilhões. O fator principal para isso foi a reação das exportações de mercadorias, que saíram de saldo positivo de menos de € 1 bilhão para € 48,3 bilhões. A crise pode ser claramente vista nas contas financeiras. Também para o período de doze meses findos em junho em relação ao anterior, a posição dos investimentos diretos e em portfólio da zona do euro saiu de ingressos líquidos de € 221 bilhões para saídas líquidas de € 69 bilhões, segundo dados do Banco Central Europeu.
A recessão europeia transmite seus efeitos negativos a vários países que são decisivos para uma retomada global, como a China. As encomendas de exportação da China caíram a um ritmo comparável ao observado após a quebra do Lehman Brothers. O índice do gerente de compras HSBC mostrou a maior contração do setor industrial chinês em 9 meses. A perda de fôlego da economia levou o Banco Central da China a realizar sua maior injeção monetária desde janeiro, de cerca de US$ 44 bilhões, para estimular a oferta de crédito, que teve seu pior mês em julho.
O pouso incerto da economia chinesa, por sua vez, trouxe sérios problemas à máquina exportadora japonesa, que emperrou e vem colecionando déficits sucessivos. Em julho, o Japão viu suas vendas para a Europa, seu terceiro maior mercado, recuarem US$ 6,5 bilhões. No geral, as exportações caíram 10% e para seus parceiros asiáticos, 5%.
Com a segunda e terceira maiores economias do mundo claudicando, as chances de uma recuperação europeia via exportações, que ocorreu em alguma medida, diminuem sensivelmente, algo que vale também para os Estados Unidos.
Havia sinais positivos nos países que estão no centro da crise da zona do euro. Na impossibilidade de usar o rápido ajuste do câmbio, eles terão de recuperar a competitividade de uma forma muito mais dolorosa. Espanha, Grécia, Portugal e Irlanda conseguiram algum avanço. A Grécia deve chegar em 2013 com um déficit de 6% do PIB, alto ainda, mas pequeno perto dos 18% de 2008. A Espanha sai de déficit de 9% para 2%, enquanto que a Irlanda vai de -6% para um superávit de 3% do PIB. O rombo externo de Portugal recua de -12% para -2%.
A melhoria poderia ser um argumento a favor da política procíclica dos líderes europeus. Mas a queda dos custos se deve mais ao alto desemprego que a avanços reais e sua continuidade está ameaçada por nova rodada de desaceleração global. Enquanto China e Japão e Brasil contrapõem-se com estímulos ao declínio da economia, a zona do euro simplesmente resolveu não agir, ou melhor, só agir com remédios que agravam o mal.








