Por Ricardo lima
O crescimento do setor de moda em Alagoas não é apenas um indicador econômico — é, sobretudo, um reflexo da força cultural que atravessa fios, rendas e histórias. Segundo o Índice de Potencial de Consumo (IPC Maps 2025), o segmento movimentou cerca de R$ 2,8 bilhões no estado, registrando um aumento expressivo de 17,8% em relação ao ano anterior. Desse total, o vestuário confeccionado respondeu por R$ 1,9 bilhão, evidenciando a consolidação de um mercado que alia tradição e inovação.
Os dados também revelam o protagonismo da classe C, responsável por R$ 1,1 bilhão em consumo, seguida pelas classes B (R$ 846,1 milhões), D/E (R$ 595 milhões) e A (R$ 232,6 milhões). Mais do que números, esse cenário demonstra como a moda está presente no cotidiano e na identidade da população alagoana.
Em Maceió, esse movimento ganha contornos ainda mais simbólicos. A produção de moda local se destaca pela incorporação de técnicas artesanais como o filé, o rendendê, o crochê e o trançado de palha — expressões que carregam memória, pertencimento e ancestralidade. O filé, em especial, tem ultrapassado fronteiras ao ser incorporado em coleções de alto padrão, atraindo o olhar de designers e ampliando sua visibilidade em âmbito nacional.
Esse avanço também impulsiona a formação profissional. Instituições como a Universidade Federal de Alagoas (ETA/UFAL), o SENAI e o Senac Alagoas têm ampliado a oferta de cursos técnicos e de qualificação, preparando novos talentos para atuar em um mercado cada vez mais conectado à economia criativa.
Paralelamente, o estado fortalece seu calendário de moda com eventos que valorizam a produção autoral e os saberes tradicionais. Iniciativas como o Renda-se Moda Festival, MOV Moda, “Fios e Tecidos, Vestir Massayó”, o Encontro Alagoano da Moda e o Festival de Moda e Comunicação do ETA/UFAL consolidam Alagoas como um território fértil para a criação.
É nesse contexto que surge o evento Tramas e Raízes, um marco recente na cena cultural alagoana. Realizado entre os dias 20 e 28 de março de 2026, no Complexo Cultural Teatro Deodoro, em Maceió, o projeto amplia o olhar sobre a moda ao integrá-la com outras linguagens artísticas e educativas. Mais do que um evento, trata-se de uma plataforma de valorização da identidade local.
Idealizado a partir do projeto “Filé em Movimento: Moda e Cultura Alagoana”, da designer Riso Costa, o evento nasceu com a proposta de lançar uma coleção cápsula, mas ganhou novas dimensões ao longo de sua realização. Realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), do Governo Federal através do Ministério da Cultura, operacionalizado pela Prefeitura de Maceió por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa (SEMCE), “Tramas e Raízes” transformou-se em uma experiência cultural abrangente.
A programação integrou exposição, desfile, palestras, oficinas e rodas de conversa, promovendo um diálogo entre tradição e contemporaneidade. No centro dessa narrativa, o desfile da coleção “Filé em Movimento” destacou-se como o ponto alto, reafirmando a renda filé não apenas como patrimônio cultural, mas como linguagem viva da moda contemporânea.
A importância do desfile autoral de Riso Costa vai além da passarela. Ele simboliza a consolidação de uma moda que nasce do território, valoriza suas raízes e dialoga com o mundo. Ao transformar técnicas tradicionais em peças de design, a estilista contribui para reposicionar o artesanato como elemento central da cadeia produtiva da moda.
Os resultados do projeto são expressivos: valorização do artesanato local, fortalecimento da economia criativa, formação de público, democratização do acesso à cultura e incentivo à moda autoral. Além disso, o evento aponta para um futuro promissor, com potencial de se firmar como parte permanente do calendário cultural de Alagoas.
Mais do que tendência, a moda alagoana se afirma como manifestação cultural e estratégia de desenvolvimento. Em cada ponto do filé, em cada trama tecida à mão, há uma narrativa que resiste, se reinventa e ganha novos palcos — mostrando que, em Alagoas, vestir-se também é um ato de memória e identidade.
