Thiago Pinheiro- é advogado e escritor
Era uma segunda feira ensolarada, quando o advogado se dirigiu ao interior para realizar mais uma audiência, algo corriqueiro. Na comarca, um juiz novo, magistrado do último concurso.
Ao realizar o pregão (chamada das partes à sala de audiência), o juiz percebe a presença do advogado usando óculos de lentes escuras.
Mecanicamente, juiz e advogado, dispensaram-se os cumprimentos habituais. Dessa vez, com uma secura recíproca.
Já sentado, o advogado dispôs a maleta sobre a mesa e aguardou o inícios dos trabalhos.
Porém, algo incomodava ao juiz que não se conteve, impondo uma ordem:
– Dr, retire os óculos escuros – disse autoritariamente.
– Retiro não, Dr – respondeu, seguro, o velho advogado.
O ambiente ficou tenso, o réu pensou na sentença. A testemunha desviava o olhar para não constranger ninguém.
– Então, se o Sr não retirar os óculos, não haverá audiência-decidiu o juiz.
– Sem objeção, não haverá audiência -concordou ironicamente o advogado.
Percebendo a pauta com muitos processos atrasados, sem conclusão. Aliado ao perfil do advogado que não “abria para um trem”, o juiz então viu uma saída e com uma voz branda, perguntou:
– É de grau, dr?
O advogado, rancoroso, respondeu :
– Sim, é de grau.
– Ah, então, tudo bem. Pode continuar com eles- afirmou o juiz em tom amistoso.
Advogado, então, saiu feliz por ter vencido o embate com o juiz. Por sua vez, o juiz anotou o número do processo para se vingar na decisão.








