Thiago Pinheiro é advogado criminalista e escritor
Quando virei juiz, achei que seria feliz. Depositei tudo no cargo de julgador. Na infância pobre, sofri o peso do poder direcionado à minha classe. Queria, então, mudar o mundo.
Ingressar no curso foi uma luta. Formei-me com aquela ambição boa do poder. Após alguns anos decorando leis e jurisprudências, fui aprovado para o cargo da magistratura. Foi um sonho: saí da pobreza, pensei em curar meus complexos e superar aquele sentimento de ser menor diante da sociedade que me maltratou.
Agora, eu era um deles, bem-sucedido, mas não queria fazer parte. Na verdade, queria me vingar, usar as leis para proteger os oprimidos e desvalidos. Desejava combater os poderosos.
Já nas primeiras decisões, lançava minha nota mais sensível. Analisava bem o caso e emitia um comando recheado de justiça material. Havia recurso e, então, eu saía vencido no tribunal. Minhas decisões eram radicalmente reformadas.
Então fui me adaptando ao pensamento do tribunal ao qual eu estava funcionalmente submetido. Aos poucos, perdi a capacidade crítica e me tornei um robô com a pilha enfraquecida.
Meus colegas de toga não me enchiam de orgulho. Muitos deles estavam ligados ao mundo político, e outros eram envaidecidos ao extremo, soberbos e materialistas.
De algum modo, vi-me igual. E isso me entristeceu. Sobreveio um vazio em um mundo rico ao meu redor.
Percebi-me burocrático, lutando por melhores vencimentos e correndo atrás de promoções e títulos sem sentido. Os processos acumulam-se sem julgamento, vidas aguardam uma definição. Enquanto eu escuto música e tomo whisky, olhando para os livros que nunca mais abri.









