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Thiago Pinheiro escreve Minha Rua

Thiago Pinheiro é advogado criminalista e escritor

A minha rua já foi de barro, com buraco, poeira e menino solto, feito bicho sem dono. Lembro dela já asfaltada, era a mesma rua, agora sem poeira, com os mesmos meninos correndo, feito animal sem coleira.

Os carros passavam e atrapalhavam nossas brincadeiras, a rua era só nossa, dos meninos soltos. Com uma leve descida, se a bola rolasse ladeira a baixo, a discussão era para quem iria busca a pelota. Os meninos sentiam o peso da preguiça e a bola se perdia no bueiro localizado no final da ladeira.

Na rua havia uma padaria que, para nós meninos pequenos, era como uma grande fábrica. Vendia-se tudo, mas, às vezes, ganhava-se um pão de graça também. Nos dias de chuva, se tivesse em casa não saía, se tivesse na rua não entrava. Cada casa um costume, era como um país diferente com seu próprio povo e idioma. Aprendemos várias línguas e respeitamos cada cultura.

A minha rua, ainda não se mudou, ela está lá, pouco triste e esquecida. As vezes vou revisitá-la e ela deve me ver também. Sinto que, ainda, ela nos espera, silenciosa, cheia de memórias para ser contada. Olhamos, saudosamente, contemplando as memórias da rua ainda viva, vibrando dentro de cada menino solto existente dentro de nós.

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