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Tarifaço afetará de forma grave e direta a saúde e o SUS, diz Arthur Chioro

Não tratarei aqui dos transtornos à saúde física e mental provocados pelas nocivas declarações do mandatário norte-americano, mas da grave imposição de tarifas de 50% sobre exportações brasileiras, que afetarão diretamente a saúde e o SUS. Para compreender os impactos da medida, ouvi especialistas e empresários do setor.

A percepção geral é de que os efeitos serão significativos, dada a forte dependência brasileira de importações dos EUA, especialmente em produtos de alta tecnologia como medicamentos, vacinas, dispositivos médicos e insumos estratégicos.

Segundo o ex-ministro José Gomes Temporão, medicamentos e produtos farmacêuticos estão entre os principais itens importados dos EUA. No primeiro semestre de 2025, essas importações cresceram 30,1% em relação ao mesmo período de 2024. Além disso, o Brasil aplica tarifas baixas – em alguns casos, nulas – sobre esses produtos.

Carlos Gadelha, coordenador do Grupo de Pesquisa Desenvolvimento e Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS) da Fiocruz, destaca que o déficit comercial do CEIS-Brasil com os EUA cresceu 70% em 30 anos, passando de 1,6 bilhão de dólares em 1997 para 2,7 bilhões em 2024.

Em 2024, importamos 3,2 bilhões de dólares e exportamos apenas 0,5 bilhão. Os medicamentos respondem por parte significativa desse déficit. Nos anos 1990, os EUA representavam cerca de 30% do déficit do CEIS; hoje, respondem por 13% das importações brasileiras de medicamentos acabados, atrás apenas da União Europeia e da China.

Há em curso uma relevante cooperação tecnológica e produtiva entre Brasil e EUA, com dez Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDP) envolvendo instituições públicas brasileiras e empresas americanas. Essas parcerias focam a internalização de tecnologias para o SUS, como vacinas (HPV e Herpes) e medicamentos (HIV, câncer e doenças raras).

Segundo Gadelha, o tarifaço coloca em risco a política do CEIS, retomada em 2023 para fortalecer o SUS.

Muitos empresários demonstram surpresa e esperam que a medida seja um blefe ou que haja espaço para negociação. Eles reconhecem o direito à reciprocidade, mas alertam para os riscos nas retaliações.

Francisco Balestrin, presidente da Federação das Santas Casas e Hospitais Beneficentes do Estado de São Paulo e do Sindicato dos Hospitais Privados do Estado afirma que, embora as exportações brasileiras para os EUA sejam modestas, a taxação afetará fortemente a competitividade da indústria nacional, forçando a busca por mercados alternativos onde há concorrência acirrada com China, Índia e Turquia, e gerando possíveis demissões.

Ele observa ainda que o mercado interno não absorverá o aumento de custos decorrente da taxação recíproca, que poderá ser repassado aos produtos.

O impacto para o SUS será enorme e é por ora incalculável. Produtos médicos, tecnologias, reagentes laboratoriais, medicamentos, insumos estratégicos e componentes terão seus preços elevados.

Nélson Mussolini, presidente-executivo do Sindusfarma, concorda que medidas de reciprocidade aumentariam os custos tanto para o SUS quanto para a Saúde Suplementar.

Multinacionais norte-americanas também serão afetadas, já que muitos de seus produtos são abastecidos com matérias-primas importadas das matrizes. Estima-se um aumento de 20% a 30% nos preços finais, o que pode torná-los menos competitivos em relação a produtos chineses. Algumas dessas empresas podem deixar o mercado nacional.

Demissões decorrentes do tarifaço em diferentes cadeias produtivas, segundo Balestrin, afetarão a cobertura da saúde suplementar, já que 80% dos beneficiários estão vinculados a planos de saúde corporativos.

Há quem defenda medidas mais duras, como a suspensão de patentes de produtos norte-americanos caso se esgotem as negociações. No entanto, representantes do setor privado alertam que o Brasil não teria capacidade imediata de assumir a produção desses itens, resultando em falta de determinados produtos. Além disso, China e Índia já possuem forte proteção de patentes, o que poderia isolar o Brasil tecnologicamente.

A pandemia de Covid-19 evidenciou a fragilidade da cadeia global de suprimentos e o quanto o Brasil é vulnerável a crises externas. O debate, portanto, transcende a economia: diz respeito à soberania e à segurança nacional.

Uma retomada de relações racionais e produtivas entre Brasil e EUA depende da revogação do tarifaço e do respeito à nossa soberania, às instituições e à democracia brasileira, fundamentais para garantir o direito à saúde e à vida.

Arthur Chioro, Professor Adjunto e orientador permanente do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva, área de Política, Planejamento e Gestão, do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Federal de São Paulo – Unifesp. Ex-Ministro da Saúde, atual Presidente da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH-MEC) e membro do Observatório de Políticas Públicas de Saúde/SUS.

Texto originalmente publicado na Carta Capital e reproduzido por  Observatório do SUS : Trump faz mal

SOBRE O AUTOR

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