Tá legal, eu aceito o argumento

Começando pelas mudanças bem-vindas em nosso país do samba e carnaval, há de se convir que a nova onda de regulamentação macroprudencial é uma evolução benfazeja e esperada ante o aumento da alavancagem e a falta de prudência demonstrada pelos sistemas bancários, principalmente dos países desenvolvidos

Fernanda Guardado- economista Sênior da Galanto Consultoria e mestre em Ciências Econômicas pela PUC-Rio-Valor Econômico

Mas não me altere a política econômica tanto  assim. Se é inegável que a crise de 2008 trouxe questionamentos  importantes e consequentes quebras de paradigmas (no Brasil, em  particular) em relação à política econômica de consenso vigente até  então, é também necessário separar o que havia de bom e de ruim na  antiga ordem antes de se mudar por inteiro o ritmo do samba.

Começando  pelas mudanças bem-vindas em nosso país do samba e carnaval, há de se  convir que a nova onda de regulamentação macroprudencial é uma evolução  benfazeja e esperada ante o aumento da alavancagem e a falta de  prudência demonstrada pelos sistemas bancários, principalmente dos  países desenvolvidos. Ao contrário do pensamento em voga até 2007, os  agentes têm muito pouco incentivo à autorregulação e a um comportamento  anticíclico em suas posições. A regulação brasileira já era  reconhecidamente mais dura do que a dos países desenvolvidos e pode ter  sido uma das grandes responsáveis pela solidez do sistema bancário local  em meio à crise (afinal, já passamos pela nossa turbulência bancária de  grandes proporções na época do Programa de Estímulo à Reestruturação e  ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional – Proer).

É certo  que algumas “inovações”, como o requerimento de capital anticíclico ou a  elevação no capital exigido dos bancos, deverão contribuir para coibir  excessos de alavancagem que penalizam a economia, em geral em seus  momentos de reversão, como se vê na Europa e nos EUA. Inicialmente,  vista com grande descaso no Brasil, em parte devido ao seu efeito  incerto sobre a demanda agregada em um momento de aceleração  inflacionária, a regulação macroprudencial se mostrou complemento válido  para a política monetária nos últimos dois anos.

Em outra frente,  a crise trouxe também uma maior consciência sobre os tamanhos das  dívidas públicas e, no Brasil, uma atrasada desaceleração no ritmo de  crescimento das despesas primárias do governo federal.

Por outro  lado, medidas recentes dão a impressão de que estão sendo lentamente  abandonadas certas linhas de atuação da política econômica que serviram  como pilares para que o Brasil alcançasse o status de sucesso e inveja  mundial do qual goza hoje. As mesmas medidas macroprudenciais louvadas  acima estão se tornando protagonistas da ação do Banco Central (BC),  desbancando o ajuste da taxa de juros como instrumento principal de  contenção da demanda agregada, o que diminui a previsibilidade da  política monetária e a própria credibilidade do BC. Fica claro que,  quando (e se) ocorrer, um ciclo de aperto nas condições monetárias  passará inicialmente, se não completamente (dada a forte disposição em  levar as taxas de juros na marra para a convergência internacional), por  medidas de caráter “regulatório” que buscarão conter o avanço do  crédito.

Não é à toa que as medidas de expectativas de inflação  além de 2012 se mantêm obstinadamente acima do centro da meta de  inflação. Igualmente preocupante é o abandono da agenda de reformas  estruturais e a escolha por medidas pontuais de “proteção” ou “ajuda” a  setores pouco competitivos da economia.

Um caso emblemático é o da  reforma tributária – vale lembrar que, há anos, a carga tributária é  apontada como o principal problema da indústria nas pesquisas feitas  pela CNI. Não é só o tamanho da carga que incomoda e onera, mas sim sua  própria complexidade, como foi lembrado na reunião recente da presidente  Dilma Rousseff com empresários de diversos setores. Este é o tipo de  agenda que, ainda que politicamente desafiadora e complexa, permitiu ao  Brasil começar a colocar a “casa em ordem” nos últimos anos. É também  uma solução muito mais eficaz e duradoura para a perda de  competitividade de alguns setores da indústria nacional do que cortes  temporários de imposto (que provavelmente só mudam a distribuição  intertemporal da produção e do consumo) ou medidas protecionistas que os  livram da competição externa.

Aliás, é realmente espantoso ver o  empenho do governo em garantir que o consumidor brasileiro siga pagando o  carro mais caro do mundo por meio de um abusivo imposto sobre a  importação – vale lembrar que, em outubro, o Ministério Público  formalizou um pedido ao Ministério da Fazenda para que fosse feita uma  investigação sobre uma possível prática de lucro abusivo das montadoras.  E, como ficou claro que mudou a melodia no que tange práticas  protecionistas, todo tipo de lobby se organiza agora para garantir,  também, a sua salvaguarda ou limitação à importação: até a  “tradicionalíssima” indústria vinífera brasileira se mobiliza para  conter a sanha dos merlots e malbecs importados. Infelizmente,  protecionismo não melhora o terroir, e nem a competitividade e o  crescimento da economia, como a década de 80 mostrou.

Assim, ainda  parafraseando Paulinho da Viola, recomendar-se-ia que no atual momento  de grande incerteza e volatilidade que cerca o cenário global, “faça  como o velho marinheiro, que durante o nevoeiro, leva o barco devagar”.  Nem tudo na ordem anterior estava errado, e aproveitar a tormenta atual  para experimentalismos perigosos pode minar o bom momento da economia  brasileira.

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