Sobre o mito da baixa poupança

A questão é sabermos como que a decisão do empresário em tomar recursos financeiros para investir será solucionada macroeconomicamente

Samuel Pessoa- sócio da Tendências Consultoria Integrada e pesquisador associado do Ibre-FGV-Valor Econômico

Se um empresário endividar-se junto a uma  instituição financeira para construir uma nova planta produtiva, o  investimento ocorrerá. O poder de compra liberado pela instituição  bancária gerou o recurso monetário que financiou o investimento. O  investimento gerou a sua própria poupança. Esse princípio, chamado de  princípio da demanda efetiva, foi estabelecido por Keynes em 1936 e  pertence ao conhecimento padrão da economia.

Todos os complexos  modelos “dinâmicos e estocásticos de equilíbrio geral” que os bancos  centrais utilizam para auxiliar na formulação da política monetária  empregam o princípio da demanda efetiva. Assim, estou ciente que a  causalidade é da poupança para o investimento.

A questão é  sabermos como que a decisão do empresário em tomar recursos financeiros  para investir será solucionada macroeconomicamente. Há três possíveis  formas. Primeiro, se houver desocupação de fatores de produção, a  decisão do empresário mobilizará parcela desses recursos ociosos e o  aumento da produção possível com a mobilização desses recursos gera a  poupança que financia o investimento. Segundo, se não houver ociosidade e  houver condições de aumentar a oferta de bens importados, o excesso de  demanda produzido pela decisão empresarial de investir gerará excesso de  demanda por bens e serviços que será coberto por elevação das  importações. Finalmente, se não houver ociosidade nem possibilidade de  elevar a absorção de poupança externa, o espírito animal do empresário  terá produzido a elevação do investimento e da inflação que corta o  consumo e produz poupança forçada.

Apesar de positivas, reduções da Selic não gerarão mais do que 1 ponto do PIB de elevação da poupança

Não  parece haver na economia brasileira ociosidade generalizada de fatores  produtivos. Desta forma, se quisermos acelerar a taxa de crescimento da  economia para 4,5% ou 5%, teremos que criar condições para que o aumento  do investimento seja acompanhado de aumento da poupança.

A  experiência recente mostrou que não tem ocorrido desta forma. De 2004  até 2008, a taxa de investimento subiu quase 5 pontos percentuais do  PIB. A taxa de crescimento do produto também se acelerou bastante. No  entanto, a poupança não veio atrás.

Todo o aumento do investimento  foi financiado pela expansão da absorção de poupança externa. Saímos de  um superávit externo de 2,5 para um déficit de 2,5 pontos percentuais  do PIB. Ou seja, o espírito animal do empresário funcionou, o  investimento elevou-se, o crescimento econômico veio, mas a poupança não  acompanhou. Este período não foi o primeiro. No governo Geisel, o  investimento deu um grande salto, mas a poupança também não acompanhou.  Fomos obrigados a recorrer à poupança externa. No período JK, o aumento  do investimento gerou fortíssima aceleração da inflação.

Há espaço  para esperarmos aumento da taxa de poupança doméstica? Para  respondermos olhamos cada um dos componentes da poupança: a das  famílias, das empresas e do setor público. Tanto no Brasil quanto nos  EUA, a poupança das famílias é da ordem de 5% do PIB. Nos países  europeus continentais está acima de 10% do PIB e nos asiático pode  chegar ao valor extremo, na China, de mais de 20%!

A poupança das  famílias depende da rede de seguro social que mitiga riscos que os  cidadãos se deparam no dia a dia de uma economia de mercado: desemprego,  saúde, perda da capacidade laboral com a idade, etc. O Brasil é o país  da sua faixa de renda que mais gasta com seguro social. Somente com  aposentadoria por tempo de serviço, por idade, por invalidez, rural e  pensão por morte gastamos 12% do PIB, o triplo do gasto de economias com  o mesmo perfil etário que o nosso. A baixa poupança das famílias é a  contrapartida do bem-estar produzido pela abrangente rede de proteção  social.

Enquanto continuar o processo de construção e  aprofundamento da rede de proteção social, não devemos esperar elevação  na poupança das famílias.

Com relação à poupança das empresas,  ela, no Brasil, representa 15% do PIB. Mais baixa, mas não muito  distante dos 22% da poupança das empresas na China. A poupança das  empresas é formada por lucros retidos.

Sua elevação requer que  mudemos as instituições trabalhistas e de regulação dos mercados de  forma a elevar o poder de barganha do capital na divisão do faturamento  das empresas entre lucros e salários e, ou, permitir a elevação da  margem de lucro na venda ao consumidor. Não parece que a sociedade  aceitaria medidas nesta direção. Assim, não há espaço para elevar a  poupança das empresas, que, como vimos, é relativamente elevada.

Finalmente,  a elevação da poupança do setor público requer redução do gasto público  em custeio e transferências ou elevação da carga tributária. Esta  última já se encontra em nível muito elevada. A queda do custeio depende  de contração dos salários dos funcionários e redução do custeio  administrativo, que, ao contrário do que se acredita, tem sido reduzido  nos últimos anos.

queda das transferências públicas depende da  redução dos gastos com a rede de seguridade social ou com os juros  pagos. A redução dos juros deve abrir algum espaço para elevação da  poupança pública. No entanto, este espaço é muito menor do que os 5% do  PIB que o Tesouro anualmente gasta com o pagamento de juros. Pouco mais  de metade deste montante refere-se à correção monetária da dívida  pública, aos impostos que o governo arrecada com os juros que paga e a  dividendos que os banco públicos pagam ao Tesouro em função do lucro que  auferem do carregamento de parcela da dívida pública. Assim, apesar de  muito positiva, a redução da taxa Selic a níveis civilizados não gerará  muito mais do que 1 ponto do PIB de elevação da poupança pública.

Ou  seja, teremos que encontrar formas de crescer sem grandes elevações da  poupança doméstica. A agenda de crescimento passa por melhoria da  qualidade da educação, da elevação da produtividade e da criação de uma  institucionalidade que permita que o país absorva, de forma sustentável,  níveis maiores de poupança externa, como, por exemplo, faz a Austrália.  Não digo que este é o melhor modelo de desenvolvimento para o país.  Digo que a sociedade, por meio de suas escolhas, decidiu que este é o  melhor para o país.

.