Sinergia com os EUA

Na agricultura, o país é uma potência global incontestável

Henrique Rezezinski – O Globo

A maior relevância do Brasil em questões  importantes da agenda internacional pode ajudar a estabelecer uma  parceria estratégica entre as duas potências das Américas. O Brasil, por  exemplo, tornou-se uma potência na produção de biocombustíveis. Juntos,  o país e os EUA produzem quase 70% do etanol mundial – e tudo indica  que os dois podem desempenhar papéis centrais no desenvolvimento desse  setor e dos mercados afins em escala global. Com relação às formas  tradicionais e ainda proeminentes de energia, o Brasil é destaque  atualmente por suas enormes reservas de petróleo e gás natural. Nem  todas as informações estão disponíveis para determinar o real valor  econômico dessas reservas, mas o Brasil está pronto para se tornar,  possivelmente, um exportador importante.

Na agricultura, o país é  uma potência global incontestável. É o maior exportador mundial de  açúcar, suco de laranja, carne bovina, aves, tabaco e café; o segundo  maior exportador de soja e alimentos à base de soja; e o quarto maior  exportador de milho e carne de porco. A mineração é outra área em que o  Brasil é uma potência. De acordo com o Serviço Geológico dos Estados  Unidos (USGS), o Brasil está entre os países com as maiores reservas  mundiais de diversos minerais e é também líder em exportação. É  importante lembrar que muitos minerais têm papel fundamental em diversas  tecnologias e produtos industriais. Os EUA dependem 100% da importação  de determinados minerais, como bauxita, grafite, nióbio e tântalo, dos  quais o Brasil é fornecedor.

Por fim, talvez um dos setores de  maior sinergia estratégica seja o aeronáutico. Esta é uma nova área a  ser explorada, à medida que o Brasil se torna um dos quatro maiores  produtores de aviões comerciais do mundo, com importantes potenciais  desdobramentos geopolíticos. O setor aeronáutico, tanto civil como  militar, merece especial destaque, pois apresenta notável potencial de  cooperação estratégica entre os dois países na área industrial, em  tecnologia de ponta e defesa hemisférica.

Outra indicação das  novas tendências é o Brasil ter se tornado rapidamente um importante  detentor de títulos do Tesouro dos EUA e protagonista das discussões  globais. Em maio de 2011, o país possuía US$ 211,4 bilhões em títulos do  Tesouro, valor que representa um aumento de 30,89% em um ano e mantém o  Brasil como quinto maior credor externo dos Estados Unidos – atrás  apenas de China, Japão, Reino Unido e um grupo de países exportadores de  petróleo.

A visita da presidente Dilma Rousseff aos Estados  Unidos nas próximas semanas se consubstancia, portanto, numa grande  oportunidade de levar ao presidente Barack Obama uma proposta de uma  agenda de trabalho abrangente, desde os tópicos comerciais até os  delicados assuntos políticos, condizente com a posição de protagonista  do Brasil na Agenda de Governança Global. Essa visão tem a virtude de  colocar para os nossos interlocutores americanos a mensagem do Brasil de  que tanto os temas bilaterais quanto os multilaterais, com a sua  dimensão bilateral, devem ser vistos de forma integrada numa agenda que  permita estabelecer uma parceria estratégica de dimensões globais. Esta  abrangeria assuntos de comércio e investimentos (tratado de  bitributação, acordo de investimento e acordo de livre comércio),  energia (renováveis e não renováveis), governança global (Conselho de  Segurança, FMI, Banco Mundial e OMC), desenvolvimento sustentável e  mudanças climáticas e segurança hemisférica (aviação civil e militar).

Temos  uma grande oportunidade de negociar, de forma soberana, uma parceria  estratégica que seja ganhadora para ambos os países e que posicione o  Brasil cada vez mais no centro da governança global. Independentemente  da importância de outras parcerias estratégicas, é fundamentalmente na  relação Brasil-Estados Unidos que se estabelecerão os principais  alicerces do protagonismo do Brasil na governança global.

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