Ana Dubeaux- Correio Braziliense
Toda unanimidade é burra, apregoou Nelson Rodrigues. Arrisco discordar do genial e polêmico dramaturgo numa questão recente. Na última quinta-feira, todos os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) consideraram constitucional o sistema de cotas instituído de forma pioneira pela Universidade de Brasília e, posteriormente, copiado por outras entidades. Nesse caso, cabe dizer: a unanimidade é justa.
Há uma infinidade de argumentos, até coerentes, contrários à reserva de vagas no ensino público por raça. Muitos, inclusive, defendem a abertura desses espaços para proteger pessoas de classes socioeconômicas desfavorecidas e não apenas negros ou índios. Faz sentido. Mas nenhuma das razões apontadas é capaz de se sobrepor a uma realidade concreta: existe uma minoria branca que tem acesso aos melhores colégios e faculdades e uma maioria negra e parda escanteada, relegada aos subempregos e aos baixos salários. Isso precisa mudar. Ainda que as cotas não sejam um mecanismo ideal, são a maneira mais eficaz de levar os negros às universidades e fazê-los ascender.
Outro fato inquestionável eleva a importância de ter, pelo menos agora, um sistema dessa natureza: o preconceito racial. Fala-se que no Brasil ele é velado. Não é. Ou melhor: pode ser para quem o sente, mas não para quem sofre as consequências dele. Mesmo num país que tem a miscigenação racial como uma característica intrínseca à sua população e, mais do que isso, como um elemento formador importantíssimo da cultura, da música, da tradição, etc., é possível observar diariamente os resquícios de um processo histórico baseado na dominância branca. Pergunte a um negro e ele vai lhe contar %u2014 e vai contar com muita dor e tristeza. Os que chegaram ao poder ainda sentem o peso do leão morto nas costas que tiveram que carregar para alcançar seus objetivos.
Dia desses, numa conversa sobre o assunto, uma amiga me disse que seu filho de 12 anos, aluno de escola particular de classe média, só tivera um, apenas um, colega de turma negro desde o maternal. Isso não é uma simples coincidência, é um retrato de exclusão. Tal realidade não muda sem um mecanismo coercitivo num primeiro momento. Pergunta-se com frequência: um negro rico não poderia ser privilegiado, enquanto um branco pobre ficaria sem vaga? Uma exceção não pode jamais anular a regra, e a regra geral é: o negro padece de longa e histórica discriminação. Nenhuma situação individual e hipotética pode apagar esse fato. A decisão do STF é, então, mais um reconhecimento da sociedade brasileira de que existem desigualdades e isso precisa mudar. Caminhamos bem, portanto, embora lentamente.