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Foi um momento histórico para a vida política brasileira. No dia 29 de setembro, uma terça-feira, a Câmara dos Deputados acolhia, por 441 votos a 38, o pedido de impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, que a partir daquele dia deixou o cargo. O fio detonador do impeachment, lembra o presidente nacional do PPS, deputado federal Roberto Freire (SP), foi o processo de corrupção.
Naquele tempo, o PT era um dos partidos que, como o PCB, encabeçava a frente anti-Collor. O PPS continua como a mesma posição. Mas o PT se juntou ao antigo desafeto, que hoje faz parte da base aliada. Nesta entrevista especial, Freire chama isso de “ironia do destino”. E diz que “o governo Collor comparado ao de Lula era para ser julgado pelo Juizado de Pequenas Causas”.
Portal – O senhor se lembra bem do governo Collor?
Roberto Freire – Sim, muito. Seu governo foi um governo desastrado na condução da economia. Vivíamos num processo inflacionário, de há muito tempo persistente, e ele cometeu desatinos, como o confisco da poupança, da própria conta corrente e, ao contrário de resolver os problemas, os aprofundou. Juntando a incompetência na área econômica com a corrupção, a sociedade brasileira reagiu e o impeachment se deu. Foi algo significativo porque se tem poucas experiências desse evento no mundo democrático e na República do Brasil isso ocorreu.
O processo de saída do presidente envolveu muito a sociedade, não?
Naquela época, os estudantes, principalmente, foram muito importantes na mobilização pelo afastamento do presidente. Hoje é diferente. Eles estão cooptados pelo governo lulopetista; mas naquela oportunidade tiveram um papel importantíssimo na mobilização de forças. E foram raras as pessoas que continuaram fiéis (a Collor). A maioria se integrou na campanha pelo impeachment, e o resultado não causou nenhuma surpresa.
Como foi possível passar o impeachment na Câmara?
Na CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) que fundamentou o afastamento, ficou demonstrado claramente o desatino e a corrupção do governo.
E o PPS, como estava?
Naquele tempo, o PPS ainda era PCB. E tão logo saiu na Veja a entrevista do irmão de Collor (Pedro Collor) com as revelações sobre o esquema de corrupção, fomos um dos primeiros partidos a pedir a instalação de uma CPI para apurar os fatos. No domingo em que a revista circulou havia uma reunião do Comitê Central em Brasília e pedimos a CPI. Na segunda-feira, os partidos maiores também passaram a defender a comissão.
E o pós impeachment?
Essas forças que participaram decisivamente do impeachment tiveram um papel decisivo na formação do governo Itamar Franco. Causou estranheza que o PT, que estava dentre elas, tenha se negado à responsabilidade de dar sustentação ao novo governo. Era o velho oportunismo, que estava ali muito presente, mantendo a posição de que tinha de se opor a tudo e a todos. Quem, dentro do PT, se empenhou em ajudar o governo Itamar Franco foi excluído. Era um pouco a prática deles. O partido já tinha colocado para fora parlamentares que tinham votado em Tancredo Neves contra o regime militar. A deputada Luiza Erundina (hoje no PSB) deixou a administração Itamar para não ser expulsa.
Como foi o governo Itamar?
O governo Itamar Franco marcou positivamente a história brasileira, com uma postura séria e decente em um momento difícil.
Hoje, Collor está de mãos dadas com o governo do PT, também acusado de corrupção.
Ironia do destino. E o PT não é só acusado, mas tem corrupção comprovada, como mostra o julgamento do Supremo Tribunal Federal do mensalão do Lula. Ironia maior é que o governo Collor comparado ao de Lula era para ser julgado pelo Juizado de Pequenas Causas. A Aliança com Collor é mais um exemplo de oportunismo do PT. Não só Collor, mas tantos outros contestados pelo PT quando na oposição. Chamar de ladrão era o mínimo que fazia, e hoje estão todos juntos. Basta ver a fotografia-símbolo da campanha de Fernando Haddad (PT) nos jardins da casa do senhor Paulo Maluf, procurado pela Interpol; os dois e Lula abraçados”.
Que lições o impeachment deixou para o Brasil?
O impeachment mostrou que a jovem democracia brasileira, vitoriosa sobre o regime militar, fincava mais raízes ainda. O afastamento de um presidente da República não é um processo fácil. A democracia amadureceu, houve avanços naquele momento e continuou havendo, mas não conseguimos manter aquilo que mobilizou a sociedade brasileira, que era sua incompatibilidade com o processo de corrupção; tivemos no governo Lula o recrudescimento da corrupção. No entanto, novamente a sociedade está dando exemplo de maturidade, acompanhando o julgamento do Supremo Tribunal Federal.







