O obstetra gaúcho Ricardo Herbet Jones representa tudo aquilo que contraria a privatização do parto. É referência internacional do atendimento humanizado a parturientes, e através de sua assistência domiciliar, junto a sua companheira, a enfermeira Zeza Jones, mais de 2.000 crianças aportaram no mundo. Veja vídeo no final do texto
Em seu livro “Memórias do Homem de Vidro – Reminiscências de um obstetra humanista”, faz a seguinte dedicatória:
” Ás tantas mulheres que me ensinaram a grandiosidade do nascimento, cujos partos me ofereceram e oportunidade de aprender e honrar esse momento magnífico e pleno de vigor transformativo. A elas a minha mais profunda gratidão, por me permitirem participar de uma parte linda de suas vidas”.
Apesar de todo o caráter de grandeza da causa escolhida para a dedicação de 40 anos da vida, o parto humanizado, a mesma luta foi utilizada para a punição de Ric e Zeza.
De acordo com as informações que nos chegaram, ambos saíram de casa para realizar mais um trabalho de parto domiciliar há 15 anos atrás, sob solicitação da mulher que daria à luz. Contudo, neste caso, o bebê não estava saudável, e chegou a ser hospitalizado, vindo a falecer horas depois por pneumonia congênita e sepse.
O médico e a enfermeira foram acusados, anos depois, e denunciados por negligência, levando-os a um julgamento que resultou em condenação de ambos, Zeza recebeu uma pena de 11 anos e Ricardo de 14 anos de prisão.
Quem sabe o que significa viver sob lutas jurídicas, pode imaginar a transformação que ocorreu na vida dessa família de humanistas, dedicada a melhorar princípios sobre o nascimento, a vida e os direitos reprodutivos e sexuais das mulheres.
Para as mulheres dedicou Ricardo, o trecho abaixo, em seu livro “Entre as Orelhas – Histórias de Parto)”:
Este livro é dedicado às mulheres, seus filhos e seus companheiros, assim como a todos os ativistas da humanização do nascimento e da amamentação, que buscam oferecer um nascimento digno, cientificamente embasado, respeitoso, que ofereça plenas condições para o desenvolvimento das potencialidades de todos que atravessam o mais poderoso dos ritos de passagem.
No mês de abril de 2025, Ricardo Jones foi preso e passou 21 dias de reclusão. Conseguiu voltar para casa através de recursos jurídicos cabíveis, mas no último dia 25 de junho, foi convocado outra vez à reclusão. No dia anterior, Ric escreveu para os amigos de causa e apoiadores da luta:
“Gente, devo chegar na prisão amanhã de manhã. Eu estive me preparando para as más notícias há bastante tempo, não fui pego de surpresa. Eu vou ficar bem não se preocupem com meu bem estar. Eu conheço o lugar, sei como me adaptar a isso. Já tenho a minha malinha pronta e sei que vou ficar um bom tempo longe de casa. Não vou fugir, me refugiar, sair correndo, pedir asilo ou coisas do tipo, porque ficar longe da família seria uma prisão muito mais dura de suportar. Acho que ficar preso vai ajudar na conscientização de nossas lutas e a proteção dos outros tantos colegas que estão sendo perseguidos. O tempo que estive aqui fora me oportunizou terminar meu livro, começar o seguinte, escrever meus artigos e ficar com meus filhos e netos. Vou sobreviver, mas creio que é importante que essa perseguição nos faça avançar.
Um beijo e abraços a todos.”
Apesar da atitude altruísta e militante do médico Ricardo Herbert Jones, não podemos silenciar diante do ocorrido, nem deixar o problema na mão dos seus familiares, que comungam uma vivência afetiva intensa e por certo merecem ter a presença do esposo, pai e avô em casa.
Quando temos na história do Brasil contemporâneo tantos casos de violações intencionais de direitos humanos e genocídio confirmado sem punição alguma, é estarrecedor acompanhar um desfecho de punição organizado para o benefício do empresariamento do parto, assim como acontece em todas as áreas da saúde, transformando médicos em tentáculos do poder capital.
Ric Jones tem esperança de que sua prisão se torne um mote para o crescimento do debate sobre a humanização do parto. A frase abaixo lhe pertence:
“A prisão de um médico que defende o parto normal no Brasil é o fundo do poço”.
Quem sentir disposição de ajuda para com os custos da defesa de Ric e Zeza, pode colaborar com qualquer valor através da chave pix: [email protected]





