Ricardo Lima
Num contexto histórico, a observação das mazelas de uma sociedade frequentemente demanda um distanciamento temporal, permitindo-nos comparar realidades com maior clareza. Contudo, há momentos que irrompem de forma avassaladora, transformando nossa percepção em um piscar de olhos. Emergimos em meio a tempestades, abalados por solavancos que perturbam nossa paz. Para alguns, esses sinais representam o prenúncio do apocalipse, enquanto para outros simbolizam o fim de paradigmas mais terrenos, como a certeza inabalável na verdade.
Longe de ser um sermão, estas palavras buscam apenas chamar atenção para o fluxo incessante de eventos que moldam a história cotidiana. Como um membro da geração X, sempre percebi a realidade como um teatro de gestos e falas desarticuladas, observado de uma posição tímida nas coxias. Na infância, alheio às estruturas sociais que me cercavam, testemunhei momentos indescritíveis, embora comuns para aqueles de pele com mais “melanina” — uma alusão ao filme de Lázaro. No entanto, mantinha a crença ingênua de viver num país de indivíduos acolhedores e tolerantes, celebrando todas as nuances da diversidade. Coisas de criança, diriam.
Os anos 80 foram marcados por eventos políticos, culturais e sociais significativos. Desde os Jogos Olímpicos de Moscou, boicotados pelos Estados Unidos, até a Copa do Mundo na Espanha, esses marcos demandavam horas até serem comunicados e absorvidos pela sociedade, atravessando as barreiras da censura militar que, por anos, ensombrou nossa existência em favor de poucos.
Minha juventude foi permeada pelo medo, guiada pela máxima “quem te matou, caveira? Foi a língua!”, uma filosofia do silêncio habilmente empregada pelo governo militar. Sob o comando do tenente-coronel João Baptista de Oliveira Figueiredo, o país de minha infância mergulhava em escândalos de corrupção, violência estatal e inflação desenfreada, onde o preço dos alimentos variava de dez pela manhã a mil no fim do dia. No entanto, nas Diretas Já, vislumbrava-se a esperança de um “Brasil, o país do futuro!”, um conceito evocado da obra do escritor Stefan Zweig, que encontrou refúgio em Petrópolis, fugindo do nazismo.
Zweig, inadvertido, ignorou que o Brasil abrigou o maior movimento nazista fora da Alemanha, os Integralistas, e acolheu Josef Mengele, o Anjo da Morte nazista. Esses fatos turbulentos ecoam em minha memória, especialmente em um mundo onde a informação se propaga à velocidade da luz, obscurecendo a linha entre verdade e ficção. A imagem idílica que eu tinha de um país acolhedor desmoronou com a ascensão do 38º presidente, um Messias às avessas, cujas palavras e gestos bruscos fomentaram a brutalidade e a ignorância.
De repente, o país retrocedeu, abraçando um passado desumano. Milhares morriam, outros tantos sofriam com a fome, enquanto o Messias, autoproclamado detentor da verdade, negava a realidade, negava a história, instigando seus seguidores a fazer o mesmo. Como todo pesadelo prolongado, emergimos, quatro anos depois, em uma normalidade frágil, com a espada da incerteza pairando sobre nós.
Urge resgatar a compreensão da verdade e da história, abrir os olhos para não sucumbir a falácias pastorais ou patronais. Afinal, em meio às revoluções silenciosas e às tempestades sociais, é imperativo buscar a lucidez que nos guiará rumo a um futuro mais esclarecido.








