Folha
A morte do desenhista, jornalista, dramaturgo e escritor Millôr Fernandes causou comoção entre seus amigos, editores e cartunistas.
O desenhista, jornalista, dramaturgo e escritor morreu na noite de terça-feira (27), aos 88 anos, em sua casa no Rio. Segundo sua família, ele sofreu falência múltipla dos órgãos e parada cardíaca.
| Ricardo Moraes/Folhapress | ||
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| O escrito Millôr Fernandes, que morreu em sua casa no Rio |
LEIA REPERCUSSÃO
“Primeiro, eu fazia parte da imensa legião dos admiradores de Millôr. O mágico das palavras e do traço. Depois fui seu editor, seu amigo e passei a admirá-lo mais ainda. Foi meu padrinho de casamento no começo da década de 80. Foi a única vez que o vi engravatado. Millôr falava muito e dizia coisas brilhantes. E se calava para ouvir seu interlocutor atentamente. Era delicado, gentil e amigo. Muitos de seus bilhetes acabavam com a saudação, “fra-paternalmente, o Millôr”. O Paulo Lima e eu tivemos o privilégio de uma convivência de quase 40 anos com Millôr Fernandes. Ele era bem mais velho do que nós. E a partir de um certo tempo passamos a temer este momento. E Millôr se foi ontem às 21 horas, aos 89 anos, depois de uma longa agonia. Seu filho, Ivan Fernandes, me disse que no final ele se foi suavemente, sem sofrimento. Esta é a dura e terrível realidade da vida; ela acaba. Leva os queridos e ficamos nós. Com esta dor no peito, este nó na garganta e esta saudade do homem, do amigo e do imenso artista que se foi.”
IVAN PINHEIRO MACHADO, editor da L&PM
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“Fiquei sabendo agora [da morte dele] pelo rádio. É uma perda irreparável. Tudo o que se poder dizer o Millôr é pouco. Sobre o que ele foi, sobre o que ele fez. Foi um maravilhoso desenhista, um escritos de talento, um teatrólogo, um tradutor. Ele nos deixa um exemplo de seriedade, de profissionalismo e, sobretudo, de olha crítico. Tinha uma visão descompromissada, independente. Deixa um legado de integridade e de visão crítica. Ele tinha uma honestidade intelectual.”
CLAUDIUS CECCON, cartunista
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“É como o Paulo Caruso disse agora há pouco. Para nós, Millôr é um Deus. O resto é pesquisa. Não tem nada que ele tenha feito que não esteja documentado. Não tem nenhum documento perdido sobre ele. É só pesquisar e você vai ver quem ele foi. Ele foi o maior filósofo que o Brasil já teve e escolheu como método o humor. Ele levou isso até as últimas consequências. Foi o maior filósofo brasileiro. Passei toda a minha vida ao lado dele. Com 11 anos eu já mandava colaborações para ele.”
ZIRALDO, cartunista e escritor
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“Eu conheci o Millôr faz muitos anos, não me lembro exatamente desde quando. Ele sempre foi um bom amigo. Lamento a perda do amigo e de uma das grandes cabeças do país. Ele foi um grande intelectual, livre pensador, é um grande exemplo para o Brasil. Ele soube pensar o Brasil, tinha posições sempre claras, sempre corajosas. Eu acho que, pelo fato de ser rotulado como humorista, talvez muita gente não tenha prestado atenção a esse outro lado dele. Ele sempre contava uma história que eu não sei dizer se é verdadeira ou falsa. Ele disse que uma vez um general disse para ele: ‘Ah, então você é o Millôr Fernandes? Então faça uma piada’. Daí ele respondeu: ‘E o senhor é general? Então dê um tiro de canhão’. Essa história diz muito sobre quem ele era.”
LUIS FERNANDO VERÍSSIMO, escritor
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“O Brasil perde o homem das fábulas e dos contos fabulosos. Millôr Fernandes era um mestre das palavras e das artes em todas as atividades que exercia, com humor cortante e crítica inteligente: jornalista, desenhista, tradutor, roteirista de cinema e dramaturgo. É com grande pesar que transmito meus sentimentos e orações a todos os seus fãs, amigos e familiares.”
GERALDO ALCKMIN, governador do Estado de São Paulo
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“Essa semana, alguns dias atrás, morreu o Chico Anysio. Agora o Millôr. É perda de mais. O país perdeu um pouco de sua graça. O Chico era realmente um criador incrivel de tipos e o Millôr era um criador incrível de palavras, de pensamento. O Millôr fazia rir pensando. O humor dele era filosófico, de pensamento, de ideias, mas, ao mesmo tempo, era muito acessível. Não era uma coisa hermética. Era, sobretudo, um pensador, que usava o humor para expressar suas ideias. Pouca gente se expressava tão bem com as palavras. Poucos exploraram o potencial semântico das palavras como ele. Ele trabalhava muito com esse jogo de palavras e criava coisas geniais. Desmontava lugares comuns. Além de ser um genial cartunista e humorista, era um grande tradutor, pintor, desenhista. Uma figura muito inquieta, muito cética. Mas seu ceticismo não era amargo, ressentido. Em tudo o que ele fazia havia humor. O Chico Anysio, no dia a dia, não era um humorista, não fazia rir. Já o MIllôr era o tempo todo, com uma energia, uma agilidade mental, uma capacidade de raciocínio. E sempre fazendo humor. Tem uma coisa curiosa. O Millôr falava muito dele. Quem mais se elogiava era ele. Dá uma sensação de um luto, de uma perda, uma atrás da outra. É terrível. Todo mundo deve estar sentido um pouco. Embora fosse uma morte mais ou menos anunciada, bateu com o impacto de uma má notícia.”
ZUENIR VENTURA, escritor
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“Com a morte de Millôr Fernandes, o Brasil perde uma referência de humor refinado, criatividade e bagagem cultural. Sua vida foi um exemplo de retidão e princípios que ajudou muito na formação do pensamento democrático brasileiro.”
GILBERTO KASSAB, prefeito de São Paulo









