O expansivo universo da virtualidade é atraente e envolvente demais para não movimentar nossas vidas, por certo a maioria de nós hoje não conseguiria mais seguir sem estes laços criados através da internet. Aqui nos encantamos, divertimos, aprendemos, nos relacionamos com seres os mais distintos, cada qual com sua mala de histórias pessoais nas costas.
Mas aqui também encontramos as mais variadas formas de ciladas.
As mais óbvias são as de caráter econômico. Conheço muitas pessoas que perderam dinheiro através de negócios feitos pela internet; algumas desistiram de reclamar e outras estão batalhando para reaver. Este universo também é capitalista e pode ter um interesses escuso esperando um distraído a cada toque. Cuidados no uso das ferramentas onlines nunca estarão fora de moda.
Fatos lamentáveis ocorridos no Brasil em tempo recente nos escancarou um mundo chamado inferior nesta imensidão incontrolada, onde a vida navega em pulsão de morte, gerando bolsões de psicopatias que ali aglomeram os que se escondem da dita normalidade.
Transtornos de condutas sexuais também encontram seu celeiro em mundos feitos para o gozo proibido. O obscuro escondido por trás das aparências pode se expandir na virtualidade, e assim o faz.
Todas as questões elencadas são sinais daquilo que enquanto humanidade nós podemos movimentar em qualquer espaço que ocupemos, deste modo, não é o território virtual quem estraga o ser, mas os próprios seres que carregam suas “malas individuais” para o espaço da virtualidade, e nelas podem esconder-se inúmeras surpresas.
Agora podemos chegar com mais tranquilidade para refletir sobre as relações desenvolvidas nesta vastidão de sanhas e interesses. Qual o real valor de uma relação desenvolvida neste terreno minado? Será que o simples fato de nos assemelharmos com alguém em um dado ponto, nos garante segurança para entabular uma relação?
São questões que emergem. Não podemos omitir estas análises, pois todos vivenciamos momentos de carências, fragilidades, e buscamos pares que afinem pontos de vistas, opiniões, gostos, e outras similaridades.
Fato é que aqui neste terreno de encontros também nos espreitam relações abusivas, quando o caráter de controle exercido por indivíduos aparentemente carismáticos aplicam manobras de sutis coerções ao que dizemos, reproduzimos, manifestamos; em tentativas de nos transformar em meros transmissores de falas “lacradoras”.
Talvez a margem mais segura de relacionamentos virtuais ainda seja não transformar ninguém em ídolo. Não se espelhar em famosos. Mesmo quando admirarmos alguém por uma característica que julgamos agradável, continuar a tratar a pessoa como ser humano, apenas. Pois quando nos deixamos guiar por líderes lacradores, corremos o risco de perder nossas próprias opiniões e restringir a margem pessoal de entendimento das coisas.
Por mais encantadora que seja a virtualidade, é a nossa vida real que realmente importa. São os nossos próprios conceitos de ser que sustentam a harmonia íntima.
Pois se entregarmos nossa auto-percepção em mãos dominadoras, quando por algum motivo não correspondermos às expectativas poderemos ser simplesmente “cancelados” na vida online.
Sim, aqui existe uma prática semelhante ao “homicídio” no mundo corporal, que é o “cancelamento” da representatividade do outro no mundo virtual.
Prática nefasta, semeadura de discórdia, injúria, dúvidas e desgostos. Incitadora de violências e perseguições que podem vir de vários lados, deixando o ente acuado, sem força de expressão.
Ainda temos muito a aprender sobre esta nova forma de viver e relacionar, porém, desde já, cuidemos de selecionar e aprimorar sempre as relações e suas manifestações públicas, pois neste território também ladeiam vida e morte.




