Reencarnação

Como, porém, iria reencarnar? Que papel escolheria para reexistir no mundo e, nele, no Brasil? As incertezas eram infinitas e maiores ainda as possibilidades

Roberto DaMatta – O Globo

O Dalai Lama disse: só eu posso decidir sobre  minha reencarnação! A frase perturbou-me. Seria possível decidir sobre a  reencarnação? Curioso, descobri por meio de meu primo Ronaldo um médium  chamado Álvaro Alvez, kardecista emérito que poderia confirmar se era  mesmo possível decidir reencarnações.

Repito o que ouvi de mestre  Álvaro: “A reencarnação anula o fosso entre o viver e o morrer porque  ela vincula um estado com o outro. Em conformidade com a Lei do Eterno  Progresso Espiritual, reencarnamos até o resgate satisfatório das  dívidas contraídas em vidas passadas. Com a reencarnação – continuou  Álvaro Alvez – recusamos definir a vida pela morte. Assim sendo,  enquanto a maioria olha a morte pelo espelho retrovisor, os  reencarnacionistas sabem que a morte leva a olhar para a frente porque  teremos sempre novas vida para viver. A ideia de reencarnação muda  tudo!”

Ao receber a pergunta sobre planejar reencarnações, mestre  Álvaro foi claro como um ministro: “Roberto – falou – nada no campo  espiritual, é impossível. Decida-se, como um Lama, relativamente às suas  próximas existências e quem sabe você as realiza? Pois como já  profetizava Quincas Berro D”Água, ao morrer pela terceira vez: “Cada  qual cuide do seu enterro, impossível não há!”

Como, porém, iria  reencarnar? Que papel escolheria para reexistir no mundo e, nele, no  Brasil? As incertezas eram infinitas e maiores ainda as possibilidades.

Primeiro,  veio-me a fantasia de voltar como craque de futebol, artista de TV,  sambista e até mesmo como o Eike Batista ou o William Bonner. Um  conselho do mestre, porém, obrigou-me a descartar essas escolhas  iniciais.

Fixei-me então em regressar como alto funcionário do  governo. Ministro de algum órgão sortido de recursos para obrar à  vontade. Que tal chefe da Casa Civil? Ou diretor da Casa da Moeda? Ou  representante do povo na Câmara ou no Senado? Nesses cargos teria não só  a oportunidade de resgatar minhas obrigações passadas, mas de criar em  dólares e falcatruas inúmeras dívidas futuras de modo que eu estaria  sempre reencarnando (e assim vivendo) sem parar.

Nisso veio o  recém-passado carnaval que me fez pensar em renascer como carnavalesco.  Imaginei o sucesso de um enredo baseado nas “Mitológicas” de Claude  Lévi-Strauss. O desfile abriria com uma alegoria baseada no Cru e o  Cozido, sendo seguida pela ala Do Mel às Cinzas, para logo exibir o  grande banquete inspirado na Origem dos Modos à Mesa para terminar  sensacional e apoteoticamente com O Homem Nu! Que coisa incrível esses  destaques, alas, e carros alegóricos no qual todas as transformações,  reversões, torções e códigos dos mitos ameríndios estivessem em cena.  Seria a carnavalização dos carnavais. Ademais, poria em foco o “homem  nu” (esse ser esquecido dos carnavais) e não essas bundudas bombadas e,  tenham dó, vestidas até o gargalo!

Muita fumaça e pouco fogo.  Disse a mim mesmo em Angra dos Reis neste último fim de semana, quando  gozei da grata hospitalidade de Romulo e Paula. Ali, diante de um mar  transparente e de montanhas que me levavam para um céu infinito, uma  tremenda inveja deliberou que eu iria reencarnar como dono de um  daqueles modestos domicílios à beira-mar, com um BMW numa porta e um  barco de 60 pés flutuando na minha praia. Viveria saindo de um veículo  para entrar no outro e assim resgataria definitivamente minha dívida com  o tal “trabalho” que os velhos romanos sabiam ser mais um castigo do  que um chamado ou vocação.

Assim cogitava quando vi na TV a  selvageria dos sambistas paulistanos diante da apuração de seu concurso  de escolas de samba e, ato contínuo, ouvi as diversas possibilidades  interpretativas do regulamento que as governa. Ao escutar as pérolas  hermenêuticas diante de uma norma de concurso de carnavalesco,  decidi-me. Se puder, prometi a mim mesmo, retornarei como foi meu avô  Raul: juiz!

Como magistrado interpretaria as leis do carma. E  dentro da nobreza republicana teria não apenas um excelente salário e  outros auxílios mais do que justos para a serenidade requerida pela  minha profissão, mas só poderia ser julgado por colegas e condenado  unicamente por maioria absoluta. E, caso isso fosse possível, seria  penalizado à prisão domiciliar com direito, eis um dano extraordinário, a  salário integral. E, como tudo o que quero no momento atual de minha  encarnação é ficar em casa, pois sair para o trabalho no Grande Rio é um  inferno, encontrei minha perfeita futura vida.

Só me resta agora  realizar os exercícios espirituais condizentes para determiná-la. Estou  seriamente pensando em me encontrar com o Dalai Lama, pois ser juiz  neste nosso Brasil republicano bem vale uma viagem ao Tibete.

Ser juiz neste nosso Brasil republicano bem vale uma viagem ao Tibete.

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