Quem vai presidir o Banco Mundial

O Bird foi fundado em 1944, em meio à II Guerra Mundial e a uma recessão global econômica grave

Rogério Studart – diretor-executivo do Brasil no Banco Mundial

No momento em que o Banco Internacional para  Reconstrução e Desenvolvimento (Bird) escolhe um novo presidente para  substituir Robert Zoellick, pode-se dizer que ele se encontra numa  encruzilhada em sua história. O papel de uma eleição é debater ideias,  reunir apoio político em torno de plataformas específicas e escolher a  melhor liderança. A eleição atual do presidente dessa instituição pode  ser um primeiro passo importante para um debate sincero entre os  acionistas para a construção do Banco Mundial do século XXI – e, talvez,  do que queremos para o futuro da comunidade internacional e do sistema  multilateral.

O Bird foi fundado em 1944, em meio à II Guerra  Mundial e a uma recessão global econômica grave. Sua criação reflete a  atitude prevalecente de que a melhor maneira de evitar a repetição da  história seria promover uma reconstrução rápida e buscar o  desenvolvimento equilibrado de todas as nações. Com a recuperação das  grandes economias industrializadas, no entanto, essa percepção inicial  desapareceu. O apoio ao desenvolvimento de todas as nações começou a ser  visto menos como interesse comum e mais como uma questão de caridade  por parte dos doadores.

A crise de 2008 foi uma trágica lembrança  da nossa necessidade de termos instituições multilaterais  verdadeiramente globais. Em um mundo cada vez mais integrado,  interligado e interdependente, a crise, que teve origem em uma pequena  parte do sistema financeiro dos Estados Unidos, espalhou-se rapidamente  para tornar-se um desastre financeiro mundial. Seus impactos foram  fortemente sentidos no comércio internacional e na produção em países  grandes e, finalmente, ela se converteu em uma crise de emprego e  transformou-se em uma grande fonte de instabilidade política.

O  Grupo Banco Mundial desempenhou um papel na resposta à crise financeira,  aumentando os seus empréstimos, mediante um apoio adicional para  setores privados, e pela canalização de financiamento para países de  baixa renda.

O papel do banco, no entanto, foi severamente  limitado pelo seu tamanho, pelo seu modelo de negócio como uma  instituição “doador-beneficiário” e oprimido pelas condicionalidades  pesadas e rigidez operacional. Agora, a situação agrava-se: a capacidade  financeira do Banco Mundial para seguir respondendo está enfraquecida  no momento em que ainda estamos longe de superar a atual crise e suas  consequências.

Essa situação reflete um apoio político titubeante  demonstrado pela lenta implementação das reformas de governança  fundamentais, das reformas operacionais e pela falta de apoio a uma  reposição de capital. Alguns justificam esse desdém com o argumento de  que qualquer aumento adicional de capital seria um mau uso de dinheiro  dos contribuintes. Além disso, alegam que dado que alguns clientes  tornaram-se grandes economias com acesso aos mercados de capitais, o  Banco Mundial seria menos necessário. Esta visão está errada por pelo  menos duas razões.

Primeiro, ao contrário da percepção  convencional, a dependência do Grupo Banco Mundial de recursos dos  contribuintes tem sido exagerada. O Grupo é uma cooperativa composta por  quatro instituições financeiras – o Bird, a Associação Internacional de  Desenvolvimento (AID), a Corporação Financeira Internacional (CFI) e a  Agência Multilateral de Garantia de Investimentos (Miga) e do Centro  Internacional para Arbitragem de Disputas sobre Investimentos (Ciadi). O  Bird e a CFI utilizam-se do seu “status” AAA para obter taxas de  mercado preferenciais e emprestar, respectivamente, aos governos de  países em desenvolvimento de renda média e a projetos privados com  impactos de desenvolvimento significativos. Como uma cooperativa  financeira, o grupo tem sido um sucesso. Tanto o Bird quanto a CFI têm  sido historicamente tão rentáveis que sua recapitalização inteira após a  crise asiática em 1998 ocorreu sem nenhuma injeção adicional de capital  dos acionistas, e parte de seu lucro líquido foi utilizado para  recapitalizar outra parte do grupo, a AID.

Em segundo lugar, se os  custos do Banco Mundial para os contribuintes são relativamente  pequenos, os seus benefícios são enormes. O grupo não é simplesmente um  provedor de financiamento barato e doações; tampouco é apenas um  “banco”.

O Bird se transformou em uma plataforma importante para  promover o diálogo e a cooperação entre as nações, para reunir e  compartilhar experiências na formulação de políticas, para promover o  desenvolvimento do setor privado e para debater soluções para lidar com  desafios enfrentados por quase todos os seus membros. Representantes do  banco discutem como combater a mudança do clima e mitigar seus impactos,  como superar a insegurança alimentar, como criar empregos e expandir  redes de seguridade social de forma sustentada, como promover a inclusão  social e econômica e como promover a igualdade de gênero.

Em um  momento em que países em desenvolvimento e desenvolvidos precisam  reinventar nossos caminhos de desenvolvimento, quando as autoridades  enfrentam desafios extraordinários e recursos escassos, certamente uma  plataforma como esta pode ser um instrumento fundamental a serviço de  todos. Mas esse potencial só pode ser cumprido se conseguirmos reunir o  apoio de todos os membros. As estratégias e políticas do banco devem ser  fruto de um processo de construção de consenso que deve pertencer a  todos os membros. Isso exige mudanças na governança do Banco Mundial e  no seu modelo de negócios.

Atualmente, o banco ainda é percebido  como uma instituição “dominada” pelos doadores, na qual a voz dos países  em desenvolvimento e sua influência são incompatíveis com seu tamanho  relativo e responsabilidade na abordagem dos grandes desafios. Como já  falamos, esta eleição é uma oportunidade extraordinária. Se conseguirmos  abraçá-la, os vencedores deste processo de seleção de um novo líder  seremos todos nós e nossas futuras gerações.

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