Quatro décadas de desenvolvimento

Diversos países fizeram campanha para receber esse novo órgão da ONU, entre eles o México, a Índia, os Estados Unidos e o Reino Unido

Achim Steiner – é subsecretário-geral da ONU e diretor executivo do Pnuma- Valor Econômico

Há 40 anos, em Estocolmo, Suécia, uma decisão  histórica foi tomada durante a Conferência da ONU sobre o Futuro da  Humanidade e do Planeta. Essa decisão fez da capital do Quênia o centro  das relações internacionais sobre o meio ambiente.

Em meio à  crescente preocupação com a poluição do ar, da terra e dos mares; e com a  perda de espécies e a morte das florestas em consequência da chuva  ácida, os países concordaram em estabelecer um órgão da ONU encarregado  de coordenar uma resposta global a esses desafios.

Diversos países  fizeram campanha para receber esse novo órgão da ONU, entre eles o  México, a Índia, os Estados Unidos e o Reino Unido. Mas foi o Quênia que  ganhou esse debate diplomático e, assim, se tornou o primeiro país em  desenvolvimento a receber uma sede da ONU.

Parte do trabalho da  Economia Verde tem sido avaliar e informar a todos os governos sobre os  serviços trilhonários que a natureza oferece, mas que, até recentemente,  têm permanecido quase que invisíveis nas contas nacionais de lucros e  perdas.

Fotos em branco e preto, tiradas no dia 2 de outubro de  1973, durante a inauguração, mostram o presidente Kenyatta rodeado por  guardas florestais, acenando ao lado do canadense de 43 anos, Maurice  Strong, o primeiro diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o  Meio Ambiente, o Pnuma.

Hoje, o escritório do Pnuma em Nairóbi  emprega cerca de 1.120 funcionários locais e internacionais e atua como  sede de uma rede estratégica de escritórios regionais em Bangcoc, Cidade  do Panamá, Washington (DC), Genebra e Reino de Bahrein.

Originalmente,  o escritório foi estabelecido para coordenar as atividades ambientais  do Sistema ONU e fornecer análises científicas para Estados-membros  sobre temas ambientais emergentes. A ênfase na ciência levou governos a  negociar tratados globais fundamentais para responder às crises  ambientais.

O Protocolo de Montreal sobre Substâncias que Destroem  a Camada de Ozônio – o revestimento de proteção que filtra os níveis  danosos de raios ultra-violeta – é um exemplo. Sem ele, os níveis  atmosféricos de substâncias nocivas à camada de ozônio poderiam ter se  multiplicado em 10 vezes até 2050, o que provocaria até 20 milhões a  mais de casos de câncer de pele e 130 milhões a mais de casos de  catarata ocular, sem mencionar os danos ao sistema imunológico humano,  aos animais selvagens e à agricultura.

No fim da década de 1980,  quando o mundo estava lutando para entender as implicações do aumento  das emissões de gases de efeito estufa na atmosfera, o Pnuma e a  Organização Mundial de Meteorologia estabeleceram o Painel  Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês).

Seu  trabalho científico se tornou referência para governos sobre as  prováveis tendências e impactos do aquecimento global. As descobertas do  painel exerceram um papel fundamental no estabelecimento da  Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima e seu tratado  de redução de emissões: o Protocolo de Kyoto.

Desde 2008, o Pnuma  tem defendido a Economia Verde como forma de gerar desenvolvimento e  empregos sem deixar de manter a pegada da humanidade dentro dos limites  ecológicos.

Parte do trabalho da Economia Verde tem sido avaliar e  informar governos sobre os serviços trilhonários que a natureza  oferece, mas que, até recentemente, têm sido quase que invisíveis nas  contas nacionais de lucros e perdas.

No Quênia, o Pnuma fez uma  parceria com o governo para estimar o valor do complexo da Floresta Mau,  que, nas últimas décadas, perdeu 30% de sua vegetação. Estima-se que os  serviços gerados pela floresta – água que alimenta uma dúzia de  sistemas fluviais, como por exemplo, a reserva Maasai Mara e o lago  Nakuru; umidade para a indústria de chá, captura de carbono – equivalem a  um total de US$ 1,5 bilhão ao ano para a economia queniana.

O mais comum é que os benefícios reais dos acordos ambientais das Nações Unidas apareçam anos ou mesmo décadas depois.

Na  Cúpula da Terra sobre Desenvolvimento Sustentável de Joanesburgo, em  2002, o Pnuma foi indicado para atuar como líder de uma aliança para  acelerar a redução gradativa de chumbo no petróleo. O chumbo é  especialmente prejudicial para o cérebro de crianças e jovens.

Desde  então, cerca de 80 países em desenvolvimento, incluindo Gana, Quênia,  Tanzânia, África do Sul, Vanuatu e alguns países Caribenhos, têm  contribuído para a remoção de chumbo de combustíveis de transporte. Só  agora é possível começar a identificar os enormes benefícios resultantes  dessas ações.

Cientistas calculam que o aumento no QI, as  reduções de problemas cardiovasculares e o declínio da criminalidade  equivalem a US$ 2,4 trilhões em benefícios associados à eliminação  global do chumbo em combustíveis.

E o que esperar do futuro? No  Conselho Governamental anual do Pnuma, que reunirá ministros do Meio  Ambiente em Nairóbi de 24 a 26 de fevereiro, todas as atenções estarão  voltadas para os resultados da Cúpula da Terra de 1992.

A Rio+20,  que acontece em junho deste ano, pode ser uma oportunidade para que a  iniciativa Economia Verde seja traduzida de uma forma inovadora e  orientada para um futuro que torne real o desenvolvimento sustentável  para 7 bilhões de pessoas – um número que pode chegar a 9 bilhões até  2050.

Alguns países, incluindo o Quênia e a Alemanha, estão também  sinalizando que chegou o momento de fortalecer o Pnuma e fazer dele uma  Organização Mundial para o Meio Ambiente.

Há 40 anos, muitos dos  desafios enfrentados pelas pessoas e pelo planeta eram teóricos. Hoje,  eles estão rapidamente se tornando realidade.

A criação do Pnuma  em Estocolmo em 1972 foi, para alguns, uma caixinha de surpresas. Se  junho de 2012 vai mudar a história do Pnuma e levar o seu processo  evolutivo a um nível mais alto, apenas o tempo irá dizer.

.