Um junho molhado se despede e abre as cortinas para julho assumir o palco. São tantas as formas líquidas, entre as águas, as lágrimas e as línguas sujas que lambem a beleza de Maceió; que chora o medo de novos desmoronamentos, de outras mortes precoces e evitáveis.
Um país que deveria aderir integralmente a uma greve geral justificada, com excesso de motivações, mas não o faz, seja porque a colonização não se desprendeu da alma, ou porque a doutrinação moralista trabalha sobre a imobilização das massas, ou qualquer motivo servirá de explicação para a indiferença suicida.
Caem os pingos da chuva com a força de um temporal, antes fosse um tempo novo…mas não foi possível aceitar o negro, o pobre, o gay, como povo brasileiro, em equidade e empoderamento…recorrendo assim aos moldes velhos, carcomidos e raivosos, quanto amarelados de bolor, no formato ditatorial do governo ilegítimo de Temer.
Ora parecemos estupefatos diante do mal que avança, as perdas que se arrogam nos impor, o desamor intenso que se alastra em nome do amor à pátria. Despatriados, estamos!
Quem dera fosse possível lutar na chuva por uma centelha maior de poesia. Quem dera não estivéssemos tão coniventes e predispostos a embocar a consciência de nós mesmos na mistura darwinista da salvação de alguns.
Agora a chuva lembra o choro. O contínuo das atribulações suportadas e empasteladas no cotidiano, como se nada pudesse feito para alterar os sabores das coisas, mas sabemos que pode. Que ainda podemos. Mas está chovendo e nossa mais forte justificativa agora é o medo do frio, porque apenas os mendigos paulistas sabem lidar com ele.
Um pedido de perdão aos mais apaixonados, que foram capazes de doar a materialidade de suas vidas e defender as causas coletivas até o martírio. Somos a sobra dos que se espelham nos ratos, somos uma quantidade grande de massa amorfa, crente, salva, pregada na cruz do nosso próprio céu, humano e mega-imperfeito.
Imperfeitamente cidadãos, somos também uma nesga de resistentes. Uma quantidade presente, servindo de farol, iluminando a treva do silenciamento que a turma maior vigia e acolhe. Somos os insatisfeitos com as perdas de direitos, corrupções que fecham hospitais e apressam a morte de milhares, somos humanos e portamos coisas boas no coração e na ideologia. Somos o que o Brasil exibe sem pudor, sem temor, somos os brasileiros que ainda não desistiram e agora saíram de casa na chuva.
