A sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à lei que proíbe o uso de linguagem neutra nos textos da administração pública não pode ser dissociada da crescente influência do eleitorado evangélico no panorama político nacional.
Aproximando-se da marca de 30% do eleitorado, os evangélicos consolidaram-se como um bloco de votos de peso e alta mobilização, frequentemente alinhado a pautas conservadoras e avesso a discussões consideradas “identitárias” ou que desafiem estruturas tradicionais de família e linguagem.
Para este segmento, o uso de pronomes como “todes” é visto não apenas como uma questão gramatical, mas como um símbolo de uma agenda progressista que confronta seus valores morais e religiosos.
Ademais, a pauta gera divisões na própria esquerda. O incômodo com o uso de termos como “todes” ficou evidente, por exemplo, durante a campanha de Guilherme Boulos (Psol) à prefeitura de São Paulo, quando o próprio candidato e Lula demonstraram irritação com a interpretação do Hino Nacional em linguagem neutra em um de seus comícios. Essa cena, prontamente instrumentalizada pela direita, expôs a rejeição ao “todes” até mesmo entre progressistas moderados.
Durante o governo anterior, o ex-presidente Jair Bolsonaro soube capitalizar a rejeição evangélica à linguagem neutra, transformando-a em um tema de polarização e um ponto de agregação de sua base. A postura de Lula, ao sancionar o veto, representa um movimento estratégico de “despolarização” e busca por moderação.
O presidente sinaliza que, apesar de manter o diálogo com a diversidade, não permitirá que pautas minoritárias e de alta rejeição generalizada prejudiquem sua performance eleitoral em um momento crucial.
Ao endossar a proibição, Lula envia uma mensagem clara de que o pragmatismo eleitoral e a necessidade de neutralizar a ofensiva da direita junto aos evangélicos, um grupo que o governo busca reconquistar, se sobrepõem à pressão da ala mais à esquerda de seu próprio campo político.
É um cálculo frio: garantir a estabilidade da base majoritária e evitar que a linguagem neutra continue a ser explorada como uma “bandeira vermelha” que afasta milhões de eleitores, especialmente em ano de pré-campanha municipal e com vistas à reeleição em 2026.
