Projeto pioneiro da Natura comprova viabilidade da agrofloresta para cultivo de palma como alternativa à monocultura

Primeira pesquisa do gênero no mundo, SAF Dendê contesta lógica de monocultura para produção dessa oleaginosa. Estudo mostra que, quando combinada com árvores e outras culturas, a planta produz mais óleo, além do sistema armazenar mais carbono no solo e melhorar as condições de trabalho do agricultor

Após 12 anos de análises, um estudo inédito comprovou que a palma (ou dendê, como é conhecida no Brasil), quando produzida em sistemas agroflorestais (SAFs), é mais produtiva e sustentável em comparação com a monocultura. A pesquisa foi realizada em parceria entre a Natura, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu (Camta), referência mundial em sistemas agroflorestais.

Contrariando a crença de que o óleo de dendê não poderia ser cultivado junto com outras espécies, já que não teria bom crescimento e produção, a pesquisa mostrou o oposto: os sistemas agroflorestais apresentaram boa produtividade e geração de serviços ambientais, como provisão de alimentos e matérias-primas, além de minimizar os efeitos das mudanças climáticas. As pesquisas apontam, ainda, que o SAF Dendê pode ser rentável para o agricultor ao permitir a colheita de diferentes espécies além do dendê ao longo do ano.

A monocultura, modelo padrão de plantio do óleo vegetal mais usado no mundo, é frequentemente associada com o desmatamento de florestas tropicais, perda da biodiversidade, poluição pela emissão de gases de efeito estufa e contaminação do solo pelo uso de agrotóxicos. Segundo dados da Aliança Europeia de Óleo de Palma, o consumo global desse insumo cresceu de 14,6 milhões de toneladas em 1995 para 61,1 milhões de toneladas em 2015. O óleo se tornou o mais utilizado no mundo, com a China, Índia, Indonésia e União Europeia no topo dos consumidores globais.

Os experimentos do SAF Dendê tiveram início em 2008 com a implantação de 18 hectares de unidades demonstrativas na área de três agricultores no município de Tomé-Açu, no Pará. O SAF Dendê tem alta diversidade na sua composição, assim como a floresta, ambiente original do dendê. Dessa maneira, a produção nesse sistema permite incluir outras plantas como a mandioca, banana, pimenta, ingá, cacau, açaí, bacaba e madeiras, que contribuem para diversificação da renda dos produtores. Em 2017, novas áreas foram implantadas junto com agricultores familiares locais, totalizando cerca de 60 hectares.

O projeto também recebeu um investimento de 4,7 milhões de dólares por meio de uma parceria com a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), momento em que o Centro Internacional de Pesquisa Agroflorestal (ICRAF) integrou o time de pesquisa.

Produtividade e solo mais bem nutrido

Com uma quantidade de plantas de dendê por hectare menor que as formas de cultivo convencionais, o SAF Dendê alcançou uma produtividade superior aos índices da monocultura, rendendo 180 kg de cacho fruto por planta – no monocultivo, esse índice fica em 139 kg. O rendimento de óleo nos frutos de dendê da agrofloresta também se mostrou até 57% maior que o da monocultura, de acordo com medições diretas nos frutos. Os tratos culturais nas áreas do SAF Dendê se basearam no manejo agroecológico sem o uso de agrotóxicos, com adubação orgânica, adubação verde, cobertura viva e uso de biocaldas. 

O grande diferencial do projeto liderado pela Natura é o cultivo de diversas espécies, incluindo árvores, junto com o dendê. “O manejo do sistema agroflorestal permite a incorporação constante de matéria orgânica no solo, o que favorece uma rede de relações entre plantas, solo e micro-organismos. O SAF Dendê é inteligente porque se inspira na natureza e nas relações benéficas de seus componentes, gerando diversos serviços ambientais como a conservação do solo, da água e da biodiversidade”, explica Débora Castellani, gerente científica da Natura e uma das responsáveis pelo projeto. Ela explica que as práticas regenerativas adotadas no sistema agroflorestal resultaram em melhor fertilidade e alto estoque de carbono no solo, chegando a 50% a mais do que no monocultivo. O manejo agroecológico favoreceu a maior diversidade de micro-organismos – variando de 92% a 238% a mais no SAF Dendê quando comparado com a monocultura -, agentes de biocontrole de pragas e doenças. “O estragol é o principal atrativo do polinizador e está presente em alta concentração (>90%) no aroma emitido pelas flores de dendê”, acrescenta Castellani.

Os cachos produzidos pelas áreas estudadas no projeto já vêm sendo incorporados à cadeia de dendê da região, da qual a Natura faz parte, e, em breve, integrarão produtos com o insumo da agrofloresta. “O modelo está sendo escalado de forma progressiva e ambiciosa para suprir toda a demanda da Natura e, ao mesmo tempo, servir de referência como uma solução sustentável para a cadeia produtiva de dendê em outras regiões”, afirma Roseli Mello, head global de P&D da Natura.

O armazenamento de carbono no solo, assim como os créditos de carbono, são produtos importantes do SAF, contribuindo para mitigar o impacto dos gases de efeito estufa sobre o clima do planeta. De acordo com as medições realizadas pela Embrapa durante a pesquisa, a conversão de uma das unidades do experimento de floresta secundária (conhecidas como “capoeira”) para o SAF Dendê fez o volume médio de carbono no solo por hectare passar de 31 para 47,5 toneladas. Segundo Steel Vasconcelos, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, um parâmetro para avaliar esse desempenho no incremento de carbono no solo pelo SAF Dendê é uma comparação com a meta estabelecida pela Iniciativa 4 por 1000, programa internacional de cooperação. A Iniciativa preconiza que uma taxa de crescimento anual do estoque de carbono nos solos de 0,4% seria o suficiente para neutralizar as emissões na atmosfera de gás carbônico.

“No SAF Dendê, o incremento anual médio de carbono no solo superou em mais de 28% a recomendação da Iniciativa 4 por 1000, o que demonstra que o sistema é eficiente para armazenar o carbono produzido pelas plantas e o que ingressa pela adubação orgânica”, pontua Vasconcelos.

Bem-estar para o agricultor e viabilidade financeira

Além de produtivo e sustentável, o SAF Dendê apresentou viabilidade técnica e financeira mesmo incluindo no custo de produção as boas práticas do manejo agroecológico. A presença de espécies de ciclo curto no SAF torna mais rápido o retorno financeiro para o produtor, enquanto a madeira gera impacto financeiro no final do ciclo produtivo do insumo – cerca de 25 anos. Muitos insumos presentes no SAF têm, ainda, múltiplos usos e podem gerar mais de um produto, para consumo ou comercialização.

Resultados preliminares de novas áreas implantadas pelo ICRAF no projeto SAF Dendê corroboram a viabilidade financeira do sistema atrelada a benefícios socioambientais. Em uma das dez unidades demonstrativas avaliadas, com base em dados de plantios até o quinto ano e projeções baseadas na literatura científica, para uma área de aproximadamente 1 hectare, com o cultivo de 14 espécies, incluindo o dendê, cacau, açaí, milho, feijão, árvores nativas, adubadeiras , dentre outras, o retorno do investimento para o agricultor, considerando um período de 25 anos, poderia ocorrer a partir do quinto ano, menos da metade do tempo necessário para o retorno do investimento inicial em monocultivo de dendê. Outras nove unidades demonstrativas na região de Tomé-Açu estão em análise para estudar o potencial da viabilidade financeira do SAF Dendê em novos arranjos produtivos.

O projeto pioneiro também mostrou ter o potencial de aumentar o bem-estar do produtor: na agrofloresta, a temperatura média é 5 graus mais baixa que o ambiente externo, incrementando o conforto térmico. Além disso, o sistema é resiliente, com produção contínua, crescente ao longo dos anos e baixa incidência de problemas nutricionais, pragas ou doenças.

“O desenvolvimento sustentável não deve ser uma alternativa, mas uma solução adotada de maneira cada vez mais ampla e constante em toda a nossa cadeia produtiva. Em nossa visão para 2050, temos ambições ousadas para gerar impacto positivo, o que envolve um trabalho incansável de empreendedorismo e inovação. O SAF Dendê é a prova de que inovar é essencial para isso”, conclui Roseli Mello.

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