Progresso e Meio Ambiente

No último meio século, em particular, analisando-se um grupo de 112 países de que se possuem dados minimamente confiáveis, somente dez não cresceram entre 1960 e 2009, e isto porque estiveram envolvidos em guerras ou revoluções

Pedro Cavalcanti Ferreira e Renato Fragelli  Cardoso – professores da pós-graduação da Escola de Economia da  Fundação Getulio Vargas (EPGE-FGV)- Valor Econômico

Até meados do século XVIII, o padrão de vida da  humanidade passou por uma longa estagnação, sendo a ideia de crescimento  econômico algo estranho às sociedades da época. Com o advento da  Revolução Industrial, começou-se a observar crescimento contínuo e  sustentável da produtividade e da renda em vários países. Esse processo  foi sempre desigual, mas vive-se muito melhor hoje que no passado.

No  último meio século, em particular, analisando-se um grupo de 112 países  de que se possuem dados minimamente confiáveis, somente dez não  cresceram entre 1960 e 2009, e isto porque estiveram envolvidos em  guerras ou revoluções. Em 70 deles a renda per capita mais que dobrou,  sendo que em metade ela mais que triplicou.

De forma contínua,  parcelas significativas da humanidade vêm sendo resgatadas da pobreza.  Os indicadores sociais constatam elevação da expectativa de vida, menor  mortalidade infantil, maior escolaridade e melhores condições materiais  em geral. Dado o crescimento acelerado de países até pouco tempo  miseráveis, como China e Índia, não é difícil imaginar que o progresso,  conforto e condições sociais favoráveis alcançarão, em pouco tempo, a  maioria da população do planeta.

Mas a incorporação dessas  populações a um padrão de consumo e conforto de que estavam alijadas não  se dá sem custos ambientais. Essa triste constatação tem levado  ambientalistas mais alarmados – sem entendimento dos instrumentos  econômicos disponíveis para disciplinar o problema, como uma combinação  de tributação e subsídios -, e até alguns economistas recém-convertidos à  causa – que parecem ter esquecido como funcionam aqueles instrumentos  -, a defenderem a tese de que o planeta teria chegado ao seu limite  físico, o que implicaria na necessidade de deter o progresso. “Mantido o  ritmo de crescimento atual, quando toda humanidade alcançar um padrão  de consumo próximo ao dos ricos países ocidentais, o planeta entrará em  colapso”, vaticinam histericamente.

Em um vídeo que circula pela  internet (www.youtube.com/watch?v=BZoKfap4g4w), o economista Hans  Rosling defende apaixonadamente o uso das máquinas de lavar – e máquinas  de uso doméstico em geral – que poupam trabalho de mulheres,  liberando-as de tarefas, permitindo-lhes se dedicar mais a si mesmas e  aos filhos, ou ainda que se insiram no mercado de trabalho. Aquelas  máquinas melhoram o bem-estar, a educação, e a produtividade das  economias. Tentar bloquear o progresso e impedir o acesso dos pobres a  esses bens materiais seria moralmente injustificável – “vão fechar a  porta agora que estou quase entrando na festa?” – e fútil, pois a  maioria que começa a ter acesso ao progresso não vai votar pelo atraso.

Dentro  de 40 anos, o consumo de energia do planeta deve dobrar, pois 1 bilhão  de pessoas se juntarão aos muito ricos que hoje respondem por metade do  consumo mundial de energia. Diante da alta probabilidade de mudanças  climáticas seríssimas, alguma alternativa à inviável proposta de se  frear o crescimento econômico precisa ser encontrada. Caberá aos  governos lutar em dois flancos para direcionarem suas economias rumo à  preservação ambiental.

O primeiro flanco será estimular, por meio  de subsídios e financiamentos, o desenvolvimento e a adoção de  tecnologias limpas, pois a atividade de pesquisa é custosa e arriscada.  Além disso, será necessário um esforço coordenado para mudar toda uma  estrutura de funcionamento das economias baseada em tecnologias  poluidoras.

Alguém só usará nova tecnologia não poluidora se  muitos também a estiverem usando. Estes dois pontos significam que os  governos precisarão não só subsidiar, por exemplo, pesquisas em carros  elétricos, mas também incentivar a criação de pontos de abastecimento de  energia para esses carros.

O outro flanco será punir quem polui  ou usa tecnologias poluidoras. A melhor punição é o velho e bom  mecanismo de preço. Há excesso de consumo de bens poluentes simplesmente  porque, do ponto de vista da sociedade, o preço desses bens está muito  baixo. Os bens poluentes precisarão ser pesadamente tributados, de modo a  forçar aqueles que mais poluem a custear os subsídios a serem  concedidos àqueles que adotarem práticas não poluidoras.

Não há  também como evitar a regulação de algumas práticas e atividades, dada as  óbvias falhas e mesmo a inexistência de mercados para disciplinar os  poluidores. Muitas dessas medidas são impopulares e de implementação  complexa, mas são tecnicamente factíveis. Há também a dificuldade de  coordenação internacional, pois os custos da redução de emissões são  potencialmente maiores em alguns países que em outros. Isso tem exigido  delicadas negociações internacionais. Entretanto, a alternativa  histérica e radical – “o planeta não aguentará, pare o progresso” – é  não só socialmente injusta e economicamente ineficiente, como também o  caminho mais provável para a inação que levará o planeta na direção que  todos querem evitar.

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