Eis que é chegada a hora de cada espírita brasileiro se permitir parar de repetir conceitos e exercitar a capacidade própria de conceituar.
A Federação Espírita Brasileira editou livretos com orientações sobre temas pertinentes, entre eles um intitulado “Respeitemos a vida – violência não!”, que aqui utilizaremos à guisa de reflexões.
Importante salientar que o lançamento foi antes de 2018.
Diz o prefácio:
” Caro(a) Leitor(a):
Reflita nos caminhos traçados por Deus e ame o próximo como a si mesmo respeitando, acima de tudo, o seu direito à vida.
A Federação Espírita Brasileira edita este livreto para que você possa compreender, nestas mensagens edificantes, que só Deus tem direitos sobre a vida humana.
Participe da campanha em Defesa da Vida.
Esclareça-se e diga não à violência! “
Será possível que este direcionamento de conduta tenha sido alterado? – Reflito e lhes questiono, espíritas atuantes nesta hora de banalização nacional da violência, na pessoa de um presidente.
Já não interessa o voto dado, urge religar fé e vida, como sói a todo cristão consciente.
Por isso mesmo, não é mais momento de refletir sobre o que fizemos, mas sobre o que iremos fazer a partir de agora, quando a fera foi alimentada pela incúria e se fortaleceu ao ponto de ameaçar vidas humanas em cantoria, na pretensa fundação de um partido que resgata a barbárie, situação que chegamos a supor superada.
Voltemos ao livreto:
“Enfoque na Codificação Espírita
Questão 742. Que é o que impele o homem à guerra?
Predominância da natureza animal sobre a natureza espiritual e transbordamento das paixões. No estado de barbaria, os povos um só direito conhecem – o do mais forte…”
Agora, no Brasil, a arminha presidencial saiu da mímica para a institucionalização de um partido, que recebeu como símbolo sua sigla meticulosamente definida por cartuchos de grosso calibre em variados modelos e ecoou “morte aos esquerdistas” como se ninassem Thanatos.
Se nossos irmãos foram livres para semear o voto da discórdia, homofobia, misoginia, racismo, xenofobia e outras miserabilidades injustificáveis, a hora da colheita veio célere! Não é permitido isentar o Movimento Espírita deste questionamento, pois não se pode trabalhar para Deus Pai Criador e para os deuses da guerra ao mesmo tempo.
Esquerdistas – assim como outras designações de segmentos sociais alvejados por Bolsonaro e seus simpatizantes – são tão herdeiros da Vida, quanto “direitistas” e também nasceram sobre o direito pátrio da brasilidade, que lhes legitimou democraticamente a atuação política.
Continuar apoiando este presidente é comprometer toda história de pretensão caritativa e prática evangélica espírita em nosso país, haja vista a materialidade de tudo aquilo que nós, espíritas progressistas ou de esquerda, tínhamos avisado, ganhar forma mais densa a cada ato governamental.
No livreto também encontramos:
“Questão 746. É crime aos olhos de Deus o assassínio?
Grande crime, pois que aquele que tira a vida ao seu semelhante corta o fio de uma existência de expiação ou de missão. Aí é que está o mal.”
Diante disso, qual será a missão dos espíritas?
Já não será possível anestesiar a consciência servindo sopas e palavras deslocadas da prática.
Pois do lado de cá, estaremos nós, os ameaçados pelo presidente que nossos confrades e confreiras ajudaram a eleger, fortalecidos pela fé plantada sob o crivo da razão, a convocar estes questionamentos e convidar nossos irmãos às experiências de amor com liberdade e respeito à vida e à diversidade humana.
Não somos dissidentes, somos espíritas libertários. Usamos as mãos para os passes e o aconchego fraternal, nunca para simbolizar a morte ou apoiá-la.
O livreto, então vai finalizando com as bem-aventuranças da pacificação, e recomendamos que todos os espíritas brasileiros façam sua releitura (pois já devem ter lido um dia).
