Definir violência estrutural é como acompanhar o trabalho meticuloso de uma rendeira, unindo fio a fio, dando laços e nós, até compor um toalhado. São tantos elementos articulados e sustentados entre si, que dá a impressão de já ter nascido pronto, como se ninguém tivesse interferido ali e acolá com a intencionalidade.
Quantas vezes ouvi pessoas a quem respeitava me dizer que para o rico existir, era preciso ter pobres! A segunda condição era quase uma obrigação. Cresci acompanhando essa mentalidade que me dizia para não questionar essa organização.
Vi pessoas lavando roupas que outras sujavam, por míseros trocados, e tentava entender aquilo, para perceber que até mesmo entre os pobres existem aqueles que são ainda mais pobres, esses lavam roupas!
Vi meninos ajudando suas mães lavadeiras, seus pais agricultores, pescadores; numa alegria de correr pelados pela beira do rio, que dava até inveja na gente que era proibido de aprender a nadar.
Mas a configuração foi sendo alterada.
As enormes filas nos postos de saúde, o acordar de madrugada e esperar o sol e a atendente entregar fichas; a escola de uns onde outros não podiam ser matriculados, e até os trajes diferenciados que nos distinguiam nas festas do padroeiro mostrava que por mais que os pobres trabalhassem não tinham direito de gozar dignidade.
Pobre era maltratado e tratado mal, onde quer que chegasse.
O que levava a pessoa cristã a entregar o presente mais caro ao filho do rico e qualquer presentinho à criança sem brinquedos?
“Ele não tem nada mesmo, então qualquer coisa serve!” Eu ouvia. “Do que adianta dá um presente caro, se não vai ter outros ao longo da vida? Só molhar o bico?”
Havia uma lógica nessa atitude, mas ela me incomodava.
Novas configurações ocorreram e entrei nas estruturas para ganhar dinheiro. Vi então as fileiras de gente pedindo soluções; traziam débitos, enfermidades e fomes! Tantas vidas ruins de serem vividas. Aprendi a ouvir pessoas.
Mas os livros me assessoravam novos entendimentos.
Havia uma perversidade nos alicerces das organizações, assim como, as justificativas para as desigualdades eram todas criadas e mantidas por nós, cada um de nós. Me assustei reproduzindo falas do tipo “filho de rapariga não tem pai”, “quem pode, pode, e quem não pode se sacode”…
Parei! Compreendi que por mais forte seja a indução, o livre-arbítrio era meu microscópio e telescópio, me ajudando a ver o que parecia não existir e ir além do que parecia possível!
Hoje procuro não pertencer a nenhum comando, senão ao da consciência de que somos todos cidadãos de direitos, em um país que tornou a miséria seu mais perfeito instrumento de subjugação.
Sei porque as instituições aparentam intangibilidade ou falência. Sei que o “o rio corre para o mar” mas aprendi a remar e assim, escolher a direção. Essa violência não precisa estar em mim, pois posso viver sem destruir. Espero mesmo é participar da construção de outros dias, outras tardes e noites dentro dessa história.