Não começou hoje o esbanjamento de ódio ao homem Lula.
Em sua primeira investida à presidência do Brasil, em 1989, a estrela incomodou o povão, que sob o rigor da força pós-64 estava acostumado a reverenciar coronéis e empresários, donos de destinos. A elite brasileira não requer conteúdo real para se apresentar como essencial, válida e oportuna; naquela ocasião, foi criado o factóide “Caçador de Marajás” para o herdeiro de Arnon de Mello, o então jovem Fernando Collor de Mello, o oposto a Lula.
Se o nordestino barbudo defendia direitos dos trabalhadores, o filho de alagoano que alardeava ter nascido no Rio de Janeiro ( portanto não era nordestino também) que se apresentava no alvor burguês, captava para si todas as referências de classe que o poder dominante mantém para si.
Lula, no entanto, foi essencial para fazer o Brasil sentir que já estava trilhando uma democracia e poderia descortinar futuros, envolvendo direitos e bem estar coletivo. Entre os primeiros votantes daquele momento, meu voto rasgou propostas familiares arcaicas e desde então me tornei de esquerda, mesmo sem nunca ter sido petista, porque uma coisa não depende da outra.
O Nordeste também rejeitou Lula. Nome simplório, feições conhecidas entre gente comum, ainda recebeu da elite uma pecha simbólica: analfabeto e cachaceiro.
A insistência do nome político de Lula abalou as placas tectônicas do poder brasileiro, até ser eleito, e mostrar que poderia diminuir a fome, ampliar escolas, criar programas de assistência com impacto real e regar com cisternas altos rincões nordestinos, nos quais a água era uma moeda invisível.
O poder não desistiria de desconstruir Lula. Era preciso associar sua imagem a tudo o que a cotidianidade rejeitava, como parâmetro ideológico cultivado pelo oportunismo dos ricos, que não enxergam valores nas comunidades que exploram. Assim, entre acertos e derrocadas, o país conseguiu avançar quilômetros adentro nas perspectivas históricas. A criação de narrativas contrárias precisava ser acirrada.
Todo o desenrolar histórico você conhece, pessoa leitora, e nosso objetivo é avaliar a facilidade com a qual o ódio a Lula e tudo o que o cerca consegue ser facilmente espalhado. Desde a raiva pela dignificação do trabalho das empregadas domésticas ao direito de receber Bolsa Família, o ódio de classe se associa ao racismo estrutural, abalando opiniões de beneficiados, que passam a condenar o governo porque o vizinho “não trabalha” e “toma cachaça”, desconsiderando que em sociedades desiguais não há chances iguais para todos, e muitos indivíduos sucumbem às fugas, no consumo de si mesmos.
O ódio que se alastra como chama em mato seco, é de classe. Mesmo que Lula não seja pobre, continua com nome de pobre. Sua procedência nordestina foi tornada insígnia de indignidade para os interesses sudestinos, sempre vorazes e milionários.
Mas o revés da rejeição contempla os que foram impedidos de estudar com a mesma intensidade que alcança os que estudaram somente para si mesmos, como manutenção de privilégios herdados. A figura identificada como “pobre de direita” é somente o pobre manipulado, sem precisão de espectro político, mas como um rebotalho histórico utilizado pela força de coerção tradicional.
Odiar Lula é algo que a maioria que o faz não sabe explicar. Associa a comportamentos, surgimento de incômodos relacionais, ou ao mais famoso fantasma da história política, o comunismo que ninguém viu, nem tocou, mas garante que rouba suas vidas.
Haja psicologia social para explicar o Brasil! Mas se existe algo que funciona como antídoto a tudo isso, é a convicção de que apesar de estarmos vivendo um péssimo casamento entre o executivo brasileiro e o congresso, se está ruim com Lula pode ficar muito pior sem ele.
O país ainda não conseguiu gestar um substituto para o nordestino com cara de pobre, que sobreviveu aos revezes da classe dominante e perdeu muitas estratégias, mas é o único que repercute esperança no país no olho de um furacão geopolítico como o de agora.
Quem vai explicar isso ao povo?





