Por uma saúde mental além das correntes

A atenção à saúde mental deveria ser sistematizada de acordo com as peculiaridades de cada povo e, dentro das possibilidades, atender a população de maneira eficaz numa pandemia. Os dilemas são muitos e cada vez mais complexos.

A falta de apoio do Governo brasileiro é o principal impedimento para pensar modos de atenção à crise psicossocial que se intensifica no Brasil. No entanto, há novidade em nossas dificuldades? Nada era um mar de rosas em nosso país e explicações para nosso estado de subdesenvolvimento e abismos de desigualdades tem vasta literatura, inclusive aqui citadas em outros textos.

No entanto, nosso problema agora é pensar a realidade sem recorrer ao “mais do mesmo”. Sabemos sim que o Governo brasileiro não está tomando medidas irresponsáveis neste momento e também podemos avaliar em maior ou menor grau as consequências. Mas que fazer?

O que se coloca a nossa frente são impossibilidades enormes e que, no entanto, estavam sempre presentes em nossa “vida normal” até pouco tempo atrás. Agora, agravam-se os precipícios e descortinamos uma imensa cratera em nosso estilo de sociabilidade. Novidade?

O brasileiro se acostumou seriamente ao modo de miserabilidade das relações que estabelece com o Estado e com a política em geral. O estarrecer dessa inocência, aparentemente natural do nosso povo esconde história e a construção de uma lógica societária que envolve o controle dos potenciais, das tecnologias e estratégias de desenvolvimento.

Psicologia possível no Brasil? Vivemos um momento extremamente duro enquanto profissionais da saúde mental. O que era sinônimo de desvalor se transformou em vergonha quando se percebe a imensa quantidade de material científico de fora em detrimento dos que aqui produzem.

O cheiro dos dias de glamour e das palestras motivacionais que enganam com ideologia as massas trabalhadoras se desfazem no sonho débil de profissão liberal.

O surf no liberalismo e no individualismo reafirma a pouca vontade de ser povo, de ser gente, travestindo de compromisso social a vontade de status-quo.

Quais possibilidades podemos abrir com as mãos em meio ao desmonte de nossas conquistas? Com qual voz vamos erguer nosso desejo de uma sociedade melhor?

O conhecimento psicológico a favor das vias burguesas de dominação, da dependência e subdesenvolvimento planejado nos países periféricos e coloniais é a falha histórica que ratifica nosso atraso e nossa incapacidade de dar a sociedade uma resposta digna a este momento de calamidade.

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