Ícone do site Repórter Nordeste

Por que a ‘traição’ de Alagoas a Pernambuco é uma destas fake news bem elaboradas?

Interessante a discussão sobre a “traição” de Alagoas que frustrou a revolução pernambucana.

Também é interessante a versão da influência das ideias da revolução francesa em cima da revolta em Pernambuco.

Mas, um ponto pouco explorado na emancipação de Alagoas é o ciclo das secas no Nordeste.

A região teve 11 secas prolongadas- e devastadoras no século 19.

A de 1877, por exemplo, incluiu, além da falta de chuva e a fome, as pestes.

Em 1817, sofriam-se os efeitos da 6a estiagem mais rigorosa naquele século.

Estiagem também mexe na economia.

Desde a chegada da família real ao Brasil, em 1808 (fugindo das tropas de Napoleão) que a nossa classe produtiva tinha de pagar a fatura dos gastos da burocracia portuguesa.

Quem bancava os luxos da Corte? Os donos de engenho nordestinos.

A seca interferiu no clima do Nordeste e na produção do açúcar.

Mas não só isso.

Em Sobrados e Mucambos, Gilberto Freyre mostra que os donos de engenho tinham poder quase absoluto no Brasil. Tanto que estavam excluídos do regime de pena de morte.

Só que esse poder emagrecia. Afinal, novos ricos surgiam no Brasil pelas bandas de Minas Gerais, encontrando diamantes.

E mais gente queria mandar no dia a dia da Colônia mais rica de Portugal.

Quando Dom João VI pisou no Brasil com o resto da família real e a camarilha europeia, em 1808, os donos de engenho começaram “a perder a majestade dos tempos coloniais”.

Antes, o rei mandava na Colônia. Só que ele morava do outro lado do oceano.

O rei mandava. E não era obedecido.

O rei agora morava no Brasil, buscava mandar em uma paisagem social patriarcal.

Daí os donos de engenho ajudaram a financiar a revolução pernambucana. Os ideias da revolução franceses foram uma cereja no bolo.

Os donos de engenho apoiam esse patrioti$mo. Pelo intere$$e mesmo de verem suas produções minguando influenciadas pelo clima e os gastos da família real crescendo, no Rio de Janeiro.

Mas aí convenceram alguns alagoanos que nós traímos Pernambuco.

Bem, a versão dessa história é contada pelos… pernambucanos.

E isso é alguma coisa neste debate. Porque quando Domingos Jorge Velho ajudou a destruir o Quilombo dos Palmares, em 1694, a versão da história (contada pelos donos da história, a elite) é que os negros rebelados desobedeciam a lei porque eram propriedade privada e os negros fujões eram ladrões e “aterrorizavam” os donos de engenho.

Foi assim que destruíram Canudos em 1897. Os donos da história diziam que Antônio Conselheiro queria implantar a monarquia e era ladrão, “aterrorizando” as pessoas “de bens”.

Como se vê, a história tem versões. Depende de quem as conte.

A de que traímos Pernambuco é uma destas fake news bem elaboradas, servindo para baixar ainda mais a estima do nosso povo.

Só.

Sair da versão mobile