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Poesia política nordestina

O Nordeste denuncia em encantos sua história de morte florida, onde o choro deveria ser pouco e a cara enfeitada de jasmin no caixão de tábuas, esquecida fugazmente.

Seria a necessidade de continuar moendo, o imperativo dessa letra. Moer cana, tirar caldo! Moer gente, tirar história, construir sistemas, legitimar riqueza nas mãos da habilidade de matar.

O prato de cada dia, o preá assado, o peito de rolinha, farinha com sal e moqueca de aruá; culinária do horror ou poesia da saciedade?

Encantos de uma cozinha feita puxadinho de barro, com varas proeminentes esquentando o miolo com o vapor da chaleira preta de alumínio amassado e fuligem acumulada.

O encanto de uma colcha de fuxicos, retalhos de rostos bravios, homens fatigados que também fatigaram mulheres e filhos.

O Nordeste não é caricato, é autorretrato do domínio imposto, do gozo mais roto que nos permitiram registrar. Uma caneca de coco raspado, mesclado com açúcar comprado com dinheiro empapado de suor derramado no canavial.

Linhas embevecidas no choro que não derramo, no olhar de penetrar fenômenos e transpor cirurgicamente silêncios para a voz pausada, equilibrista de boicotes intelectualizados.

Nem tudo no Nordeste é seca, em muitos alagados a vida afoga e os opressores soltam fogos!

Mas tudo no Nordeste é história, é resumo dessa brasilidade ressecada pela ausência de alma, excesso de conformidades e som abafado de bala endereçada.

Aqui não precisamos de mantras vindos de fora, temos nossas próprias vítimas e seus martirológios enterrados no raso viver de um cotidiano violento, entre risos e mangas doces.

Nordeste não é cartilha fácil de compreender sem a mediação da poesia e o gosto de viver.

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