PIB potencial e o fluxo imigratório

A aplicação de um filtro à série dessazonalizada do PIB brasileiro sugere que o potencial estaria em torno de 3,7% ao ano no fim de 2011

Bráulio Borges – economista-chefe da LCA Consultores- Valor Econômico

Em uma pesquisa feita junto a cerca de 60  analistas no final de 2010, o Banco Central (BC) constatou que a  estimativa mediana do mercado para o Produto Interno Bruto (PIB)  potencial brasileiro era de 4,5% na época. Não obstante, desde o fim de  2011, alguns analistas vêm questionando essa estimativa, sugerindo que o  potencial brasileiro já estaria mais próximo de 3,5% – o BC perdeu a  oportunidade de atualizar essa estimativa no começo de fevereiro de  2012, quando perguntou aos analistas as estimativas de juro neutro, da  taxa de emprego que não acelera a inflação (Nairu) e impacto da nova  Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) sobre o IPCA.

A aplicação  de um filtro à série dessazonalizada do PIB brasileiro sugere que o  potencial estaria em torno de 3,7% ao ano no fim de 2011. O problema  dessas estimativas puramente econométricas é que elas são bastante  instáveis na ponta, além de serem muito ateóricas.

Nesse sentido,  outras metodologias são mais robustas. A primeira delas é a estimação de  uma curva de Phillips, a partir do conceito teórico de que quando o  crescimento do PIB efetivo é igual ao potencial, não há aceleração da  inflação. Tomando por base dados anuais entre 2003 e 2011 e a evolução  do IPCA livres, essa conta aponta um potencial de 4,3% ao ano (essa  estimativa não muda caso se considere a série do IPCA retroativo  construído pela LCA a partir dos pesos da nova POF que passaram a ser  incorporados no cálculo do IPCA a partir de janeiro de 2012). Caso seja  considerado apenas o período 2006-2011, o potencial estimado cai para  3,9% ao ano (variação que sobe a 4% quando se considera o IPCA  retroativo).

A outra metodologia para estimação do PIB potencial é  a de função de produção, que decompõe a evolução do crescimento da  capacidade de oferta doméstica em três grandes condicionantes: estoque  de capital, oferta de mão de obra e ganhos de produtividade.

O  estoque de capital brasileiro, série estimada pelo Instituto de Pesquisa  Econômica Aplicada (Ipea) até 2008 e atualizada pela LCA com os fluxos  trimestrais de investimento e considerando uma depreciação de 4,7% ao  ano, avançou 4,4% em 2011, mantendo o mesmo ritmo de alta observado em  2010. Assim, caso a única restrição à expansão da oferta no Brasil fosse  esse fator de produção, nosso potencial de crescimento estaria hoje em  4,4% ao ano.

Não obstante, esse fator de produção tem um peso de  “apenas” 40% na função de produção brasileira, com os outros 60%  dependendo da oferta de mão de obra. A oferta de mão-de-obra, sob um  prisma de médio e longo prazos, está associada à evolução da População  em Idade Ativa (PIA) e também da tendência da taxa de participação –  razão entre a População Economicamente Ativa (PEA) e a PIA.

Como a  taxa de participação brasileira hoje já se encontra em um nível  historicamente elevado, o crescimento da oferta de mão de obra tem  dependido basicamente do crescimento da PIA, que se elevou em 1,5% em  2011 (as estimativas oficiais do IBGE ainda não incorporam os resultados  do Censo 2010).

Por fim, os ganhos de produtividade. A sua  estimação é feita por resíduo, descontando-se do crescimento efetivo do  PIB a variação do estoque de capital em uso (estoque de capital ajustado  pelo Nível de Utilização da Capacidade Instalada, NUCI, da economia) e a  variação da população ocupada (idealmente deveriam ser consideradas as  horas trabalhadas, mas esses dados são difíceis de serem obtidos para o  agregado da economia brasileira). Não obstante, a produtividade é uma  variável sabidamente pró-cíclica, em função da rigidez do mercado de  trabalho. Com efeito, para se calcular o PIB potencial, é preciso levar  em conta a tendência de crescimento da produtividade e não a sua  variação em determinado ano. Embora conjunturalmente os ganhos de  produtividade tenham desacelerado de uma alta de 2,6% em 2010 para  apenas 0,5% em 2011, a tendência da produtividade brasileira está  crescendo cerca de 1,2% ao ano.

Compondo o crescimento desses  condicionantes da oferta agregada doméstica, chega-se a um crescimento  potencial de 3,9% em 2011 – valor que se aproxima das outras estimativas  apresentadas acima. Com efeito, um “educated guess” para o crescimento  potencial da economia brasileira hoje é algo em torno de 4% ao ano.

E  olhando para frente? Caso a taxa de investimento (razão entre a  Formação Bruta de Capital Fixo, FBCF, e o PIB) fique em cerca de 20%  entre 2012 e 2014, acima dos 19,3% de 2011, o estoque de capital deverá  seguir crescendo cerca de 4,5% ao ano. Uma taxa de investimento chegando  a 24% em 2014 – cenário do governo – poderia elevar esse crescimento do  estoque de capital para cerca de 5,5%, agregando 0,4 ponto percentual  ao crescimento potencial brasileiro). Não há razões para esperar um  grande salto dos ganhos de produtividade, uma vez que eles dependem de  reformas microeconômicas e de investimentos em educação que dificilmente  maturam nesse prazo mais curto.

Uma grande incógnita reside no  que esperar da oferta de mão de obra. As projeções atuais do IBGE  apontam um crescimento médio de 1,4% da PIA em 2012-2014 – quadro não  muito diferente daquele verificado na média dos últimos anos.

Não  obstante, essas projeções não consideram fluxos imigratórios.  Aparentemente estamos passando por uma mudança estrutural, em função do  grande diferencial de crescimento e de desemprego do Brasil em relação a  muitas outras economias no mundo, que vem atraindo estrangeiros para  trabalhar no Brasil e gerando a repatriação de brasileiros.

Segundo  o Ministério da Justiça, somente em 2011 o número de estrangeiros  legalizados no Brasil se elevou em 540 mil pessoas (0,3% da PIA estimada  para o Brasil em 2011). Essa é uma questão que passa a ser pertinente  para avaliar a capacidade de crescimento não inflacionária da economia  brasileira no futuro próximo. Um fluxo imigratório de 1 milhão de  pessoas em idade ativa por ano pode aumentar nosso potencial em 0,4  ponto percentual – ou mais, caso esses trabalhadores tenham um nível  médio de qualificação superior à média atual dos brasileiros, o que  também elevaria os ganhos de produtividade de nossa economia.

.