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Pés descalços e montanha-russa

Adriana Kortlandt-Correio Braziliense

Sexta posição no PIB mundial e, segundo dados da ONU, apenas sete nações apresentam distribuição de renda pior do que a nossa: Colômbia, Bolívia, Honduras, África do Sul, Angola, Haiti e Comoros. No IDH, o Brasil tem progredido, porém sua posição geral, em apenas 84º lugar, ainda o exclui do grupo mais seleto. Temos dados para tudo, coeficientes que nos catapultam para alturas e abismos, orgulho e vergonha: é a montanha-russa brasileira num percurso cheio de números. A ideia desta crônica, porém, não é listar e comparar, mas apresentar outra “medição” possível: a dos pés descalços de Bunker Roy.

O indiano Roy fundou nos anos 1970 a Universidade dos Pés Descalços, que ensina mulheres e homens do meio rural a se tornarem dentistas, médicos, engenheiros solares, artesãos, tudo isso sem sair das aldeias. Inspirado pelo estilo de vida e trabalho de Mahatma Gandhi, o Barefoot College tem como objetivo resolver problemas nas comunidades rurais, equipando seu povo com as habilidades e conhecimento necessários para torná-las autossuficientes e sustentáveis. É a única faculdade no mundo construída pelos pobres, para os pobres e gerida pelos pobres que ganham menos de US$ 1 por dia. Desde a fundação, mais de 20 Universidades Pés-Descalços foram iniciadas em mais de 13 estados indianos.

Hoje em dia, Roy compartilha suas experiências em palestras públicas gratuitas que realiza por todo o mundo. “Descobri habilidades e conhecimentos extraordinários que as pessoas muito pobres possuem, os quais nunca trouxemos ao público em geral, os quais nunca são identificados, respeitados e aplicados em grande escala. (…) Aí os anciãos me deram um conselho muito bom e profundo: “Por favor, não traga ninguém com curso universitário e diplomas”. Assim, é a única universidade na Índia em que, se você tem um doutorado ou um mestrado, você é desqualificado. (…) Começamos a universidade e redefinimos profissionalismo. O que é um profissional? O profissional é alguém que possui uma mistura de competência, confiança e convicções. Um vidente é um profissional, uma parteira tradicional é uma profissional, o oleiro tradicional é um profissional. Esses são profissionais no mundo inteiro. Nós os encontramos em qualquer povoado remoto no mundo inteiro. (…) Nós queremos que você tenha ideias loucas. Qualquer ideia que você tenha, venha e experimente, não importa se fracassa. (…) Você é certificado pela comunidade a que serve (…)”, sabiamente nos ensina.

A primeira construção foi feita em 1986 por arquitetos pés descalços, que não sabem ler e escrever, construída com R$ 20,80 por metro quadrado. O jardim do câmpus, outrora um terreno arenoso, foi replantado seguindo metodologia tradicional local e floresceu a despeito do desencorajamento de engenheiros florestais. A vedação do telhado é mistura feita com açúcar mascavo, urens (planta local) e outros segredos exclusivos das mulheres que realizam este trabalho.

O fato é que o telhado não vaza desde sua construção, em 1986. É a única faculdade eletrificada completamente com energia solar. E nos próximos 25 anos tudo deverá funcionar somente a partir dela. “Enquanto o sol brilhar, não teremos problemas com eletricidade”, comenta o bem-humorado Bunker Roy. A comida também é feita com energia solar, e as pessoas que fabricam esses sofisticados fogões solares são mulheres iletradas. Povoados e mais povoados estão supridos com energia solar, instalada por pessoas simples e treinadas. A ideia já foi exportada para países vizinhos.

Bunker Roy é o exemplo vivo de que soluções eficientes não precisam ser importadas, mas criadas com o tesouro humano que se tem, tão vasto quanto numeroso. Ao conhecer seu trabalho, fiquei pensando em quantos pés descalços temos em nosso país, ao nosso lado, e nem sabemos. Miríades de soluções regionais estão espalhadas nas mãos de pessoas do mundo inteiro e não concentradas nas de poucos detentores do poder. Elas não são espetaculares, ultratecnológicas, nem milagreiras. Elas não excluem, mas incluem pessoas de todas as idades, dignificam o saber humano, proativo e regional.

Fico sem fôlego ao pensar nas imensas dificuldades que Roy e seus cúmplices tiveram em todos estes anos e como seria, se aqui no Brasil nós nos inspirássemos neles… ou será que já existem e precisam ser apenas conhecidos? Vou terminar com palavras do Roy, que gosta de terminar as palestras que faz citando Gandhi: “Primeiro, eles o ignoram, depois riem de você, depois brigam, e então, você vence”.

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