Reunido com os prefeitos, vereadores e deputados do PSDB, o governador aclamou: todos poderiam votar em quem quisessem nas eleições de outubro. Mesmo que o partido lançasse um candidato na disputa à chefia do Executivo. Foi isso o que aconteceu: o vereador, jornalista e ex-animador da campanha de Vilela, Júlio César, assumiu o fardo de entrar na disputa, como última das últimas alternativas do Palácio República dos Palmares em salvar a herança do tucanato local.
Sem chances diante das poderosas campanhas do senador Benedito de Lira (PP) e o deputado federal Renan Filho (PMDB), o PSDB se divide: o presidente da Associação dos Municípios (AMA), Jorge Dantas, confirmou que vota na vereadora Heloísa Helena (PSOL) ao Senado. “Não farei campanha para ela. Apenas declaro meu voto. Ela já sabe de minha opção”, disse.
O prefeito de Palmeira dos Índios, James Ribeiro, fica com o senador Fernando Collor (PTB).
Em Maceió, Rui Palmeira declara apoio ao senador Benedito de Lira (PP). Ao Senado, deve ficar com Collor (pelos laços com o pai dele, Guilherme).
O ex-vice de Eduardo Tavares, o deputado estadual Gilvan Barros, mantem o filho na disputa à Assembleia Legislativa. E será cabo eleitoral de Renan Filho.
Com um xadrez político extraordinariamente complicado, Alagoas vive uma situação estranha. Desde a redemocratização, em 1985, todos os governadores alagoanos fizeram o sucessor ou apontaram um nome viável para a disputa eleitoral.
Desde 1986, quando, para enfrentar Fernando Collor, naquela época no PMDB, Divaldo Suruagy, do então PDS, lançou Guilherme Palmeira; até recentemente, em 2006, o então governador Ronaldo Lessa, do PSB, escolheu o senador Teotonio Vilela Filho (PSDB) para sucedê-lo, derrotando o usineiro João Lyra, então no PTB. Em todas as eleições existia uma candidatura governista.
Porém, esta é a primeira disputa na qual o Palácio República dos Palmares fica de fora, trabalhando como uma linha auxiliar de uma frente eleitoral que tem o apoio da máquina estadual sem, no entanto, assumir que é a candidatura do governador.
Arrumação
Uma das explicações para esta situação está no próprio governo Téo Vilela, uma arrumação de muitos secretários, mas sem unidade partidária, programa de governo ou comando político.
Cada secretário se considerava no cargo em função do apoio político de determinado parlamentar ou de um grupo econômico, como no caso da Secretaria da Fazenda. E o governo se transformou num condomínio.
Na hora em quem foi preciso ter a mínima coerência para apresentar uma proposta de sucessão, cada um saiu para o próprio lado. Biu de Lira era o governador de fato de três secretarias, o deputado federal Givaldo Carimbão (PROS) de duas, o vice-governador José Thomáz Nonô (DEM) e o deputado federal Maurício Quintella (PR)tomavam conta de outras duas, cada um, e a família Toledo de mais duas.
Cada secretário prestava contas ao chefe político. Em muitos casos, nem o governador sabia, nem mesmo o secretário do Gabinete Civil, Álvaro Machado, acompanhava o que se passava dentro de cada uma delas.
Como não havia comando no Governo, os nomes lançados foram sendo desmontados um a um pela própria rivalidade interna.
O primeiro foi Thomaz Nonô, sucessor natural por ser vice-governador por oito anos. Sem apoio e sabotado pelos demais grupos, Nonô terminou protagonizando um fato nacional quando o DEM deixou a coligação com o PSDB local para apoiar o PP. Terá uma aposentadoria vista como honrosa: levar adiante a campanha do senador Aécio Neves no Nordeste.
Dois secretários, Marcos Fireman e Luiz Otávio, também se lançaram e, da mesma forma, foram descartados por Téo Vilela. Hoje, Fireman joga um papel importante na candidatura de Biu (substituindo Napoleão Casado, indicado por Maurício Quintella) e Luiz Otávio está no banco de reservas, olhando os lances da partida.
Até o deputado federal Alexandre Toledo, que foi para o PSB como uma iniciativa do Palácio para ser o candidato a governador e ajudar a o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB), ficou ziguezagueando como postulante a governador, senador, para terminar vice de Biu de Lira.
Mal avaliado nas funções mais importantes – saúde, educação e segurança – o Governo também foi reprovado no âmbito político, quando não conseguiu fazer uma chapa minimamente competitiva.
Fiasco de ET
O caso mais chamativo foi a escolha do procurador Eduardo Tavares para a disputa. Lembrando que ele disse ter saído da disputa por falta de apoio (também financeiro) do Governo.
Não é toda a verdade porque a campanha de ET até o dia 25 de julho (ele renunciou no dia 24) havia recebido R$ 1,2 milhão. Nada mal comparado a Renan Filho (R$ 2,5 milhões) e Biu de Lira (R$ 962,2 mil). Problema era o projeto: garantir a eleição do sobrinho de Vilela, Pedro, a deputado federal e o segundo turno a Biu de Lira.
ET rejeitou as duas propostas.
Tirado do bolso do colete, ele foi vendido como um nome novo. Sem experiência política, a não ser uma passagem como vereador em Traipu, Tavares não conseguiu juntar nem mesmo os deputados e prefeitos tucanos. Apontada como resultado de um acordo com Renan Calheiros, essa escolha soou meio estranha no mundo político. Havia quem acreditasse que Téo Vilela estava se guardando junto ao Poder Judiciário em futuras decisões- em especial a da Operação Navalha, cujas investigações voltam a primeira instância no próximo ano.
Depois de um mês de campanha, ET alegou falta de apoio e de estrutura. E abandonou a candidatura. Toda a história de “novo nome” ou “jeito diferente” foi para o espaço.
Como explicar que o candidato do governador não tenha tido condições mínimas para fazer uma campanha? Todos os políticos experientes afirmam que qualquer candidato apoiado – de fato – por um governador teria 30% dos votos.
Com a caneta nas mãos, o governador pode mobilizar recursos para, pelo menos, começar bem uma campanha. Téo Vilela fez o contrário.
Não mobilizou nenhum de seus prefeitos ou deputados, determinando o apoio ao desconhecido Tavares e, tão grave, não pressionou os partidos aliados para que dessem apoio a candidatura governista. Manteve, por exemplo, os cargos do PROS, mesmo ele estando com Renan Filho; PP, PSB e PRB não perderam cargos na administração.
Vilela assistiu quase passivamente os aliados caminharem em direção a Biu de Lira e o máximo do esforço foi atrair o PRB de Galba Novais, que mais refletiu sua preocupação em garantir a chapa federal para seu sobrinho Pedro e atrapalhar os planos de Collor. O PRB tinha a suplência de Collor com Euclydes Mello.
As análises – e especulações – levantam a possibilidade de um acordo entre Téo e Renan pensando em 2018. Só assim se explicaria tanta facilidade para a formação da frente liderada por Biu de Lira, a cortesia em relação ao PMDB e o comportamento tão desinteressado do governador em relação ao candidato do Palácio República dos Palmares. Esta semana, o ato final da campanha tucana revela a própria dissolução partidária, quando o ex-futuro vice, deputado estadual Gilvan Barros, negou-se a ser o candidato a governador restando Téo lançar o vereador Julio César, de Palmeira dos Índios, o mesmo que vinha fazendo campanha para Biu de Lira do PP.
Biu: o obstinado
O senador Biu de Lira é um exemplo de obstinação. Na eleição de 2010, saiu de 3% nas pesquisas iniciais para ser o mais votado candidato ao senado, com mais votos que a vereadora Heloísa Helena (PSOL) e o senador Renan Calheiros (PMDB), tratados como nomes fáceis nas urnas.
Desde então, Biu é candidato a governador tratando-se como a zebra da votação. Líder de um partido da base do Governo Federal, de onde conseguiu trazer recursos para quase todos os municípios de Alagoas, Biu de Lira foi costurando uma rede de alianças em torno de seu nome capaz de esvaziar a chapa tucana. Ou recebeu a ajuda de Vilela para este esvaziamento.
Montou base na sede do Governo Estadual, atraiu os prefeitos que não estavam com Renan Calheiros, e, com o apoio discreto de Téo Vilela, com quem conversa regularmente, levou até o vice-governador para sua frente eleitoral. Preocupado com o futuro de seu filho, o deputado federal Artur Lira (PP), articulou uma chapa para a Câmara dos Deputados que garante seu sucessor e mais dois outros nomes.
Diferentemente da chapa tucana, construiu uma boa estrutura de campanha que vem fazendo uma animada presença em bairros e cidades do interior.
A força da campanha de Biu vem atraindo os mais diversos apoios. O presidente da Assembleia, deputado Fernando Toledo (PSDB), é o caso mais conhecido, mas há também o prefeito Rui Palmeira (PSDB).
Suave oposição
O candidato de oposição é Renan Filho, beneficiado pela conjugação de três forças políticas locais: a do seu pai, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), que comanda a maioria das lideranças do interior de Alagoas, com sua longa trajetória que vem desde a segunda metade dos anos 1970; a do ex-governador Ronaldo Lessa, com sua disponibilidade para articular as mais diferentes lideranças partidárias em torno do projeto do PMDB; e a do senador Fernando Collor, com sua força de comunicação que ajudou a desmontar a imagem do governo Téo Vilela, facilitando a vida da oposição.
Prefeitos e vereadores do interior são responsáveis por 30% dos votos em qualquer eleição alagoana, é o que afirmam os analistas de campo. A cidade de Maceió tem apenas 500 mil dos dois milhões de eleitores. Desde o ano passado que Renan-pai vem dando demonstrações de que comanda pelo menos 85 prefeitos; e, em muitos casos, prefeitos e líderes da oposição local.
O ex-governador Ronaldo Lessa caiu em campo e construiu o que parecia impossível, uma frente de ex-inimigos da vida inteira e adversários recentes. O senador Collor, na avaliação de fontes governistas, foi o principal causador dos estragos na imagem do governo Téo, com suas denúncias amplamente divulgadas nos meios de comunicação.
Collor tem sido beneficiado, até agora, pelos lançamentos de outros candidatos ao Senado. Nonô que poderia ter sido o nome governista para enfrentar com chances reais a disputa senatorial, foi cozinhado e terminou como coordenador de uma campanha que quase não existe em Alagoas, que é a de Aécio Neves.
Omar Coelho faz a campanha junto a Biu, mas sem conseguir entusiasmar nem mesmo os candidatos proporcionais, apesar de arrecadar bastante: R$ 227,8 mil, segundo declarou ao Tribunal Superior Eleitoral. Vem em segundo lugar, perdendo para Collor (R$ 238,4 mil) e Heloísa (R$ 10 mil).
A reclamação também já atinge parte desses candidatos que aderiu a campanha de Fernando do Collor. Eduardo Magalhães, agora ao lado do vereador Júlio Cézar, cumprirá a exigência burocrática do PSDB ter chapa majoritária. O nome da disputa é Heloísa Helena que vem recebendo apoios públicos de tucanos, como o deputado Inácio Loyola, e do polêmico João Henrique Caldas e contará com a presença de Marina Silva em Maceió.
Pesquisas
Os institutos de pesquisa até agora não deram o ar graça em Alagoas. Praticamente em todos os estados, os grandes institutos – Ibope, Vox Populi e Datafolha – anunciaram os resultados de pesquisa para os majoritários estaduais nestes últimos quinze dias.
Alagoas está de fora e a última pesquisa registrada foi realizada em maio. Talvez eles estejam esperando o dia 20, quando começam os programas gratuitos de rádio e tv. Se as pesquisas refletirem as campanhas de rua, Biu de Lira e Renan Filho deverão polarizar os resultados para governador; Collor e Heloísa deverão colher os melhores índices para o senado. Os chamados nanicos ainda não saíram para fazer campanha de rua. Nem mesmo o PSOL de Heloísa e Mário Agra.
E a campanha tucana, com seus desconhecidos candidatos, deverá dar a marca especial da campanha alagoana, chamando a atenção para uma chapa governista que não tem apoio no Palácio nem mesmo dos seus proporcionais.