Os riscos da concentração bancária

Foi com uma crise dessa dimensão, da qual muitos países ainda não se recuperaram, que os bancos centrais começaram a discutir o aprimoramento das normas que regem um dos setores mais estratégicos para o crescimento econômico

João Heraldo Lima – Correio Braziliense

Na  manhã de 15 de setembro de 2008 caiu a primeira peça de um dominó que  desencadeou uma crise financeira sem precedentes. A falência do  centenário banco americano Lehman Brothers revelou ao mundo as falhas  sistêmicas de um mercado que operava sem rígidos controles.

Foi  com uma crise dessa dimensão, da qual muitos países ainda não se  recuperaram, que os bancos centrais começaram a discutir o aprimoramento  das normas que regem um dos setores mais estratégicos para o  crescimento econômico. A percepção da necessidade de regras mais rígidas  resultou no Acordo de Basileia 3. Entretanto, é preciso cautela na  dosagem dessas medidas para o sistema financeiro brasileiro, um dos mais  austeros do mundo no que compete à formulação e cumprimento de normas.  Sem dúvidas, Basileia 3 pode trazer muitas contribuições, mas, se  subirmos demais o nível das exigências, corremos o risco de inverter o  propósito do acordo, agravando um problema que tem afetado a qualidade  do nosso mercado: a concentração bancária.

O Banco Central  brasileiro colocou em audiência pública as novas normas que devem reger o  mercado. Do ponto de vista dos bancos pequenos e médios, o órgão  regulador tem mostrado pouca flexibilidade quanto à aplicação de padrões  ainda mais rígidos.

Calibrar a regulação de acordo com o porte  das instituições pode, eventualmente, trazer benefícios para a  competitividade do sistema financeiro do país.

É de suma  importância que os bancos elevem os níveis de solvência, mas não se pode  deixar que as regras, que são facilmente absorvidas pelos grandes  bancos, prejudiquem o segmento de pequenos e médios.

A experiência  evidencia que quanto maior for o número de empresas que oferecerem um  mesmo serviço, maior será a necessidade de criar diferenciais para  atrair e fidelizar clientes. A competição, portanto, eleva a eficiência e  a qualidade de um setor.

Nesse contexto, o sistema bancário  brasileiro só está perdendo força. O Brasil conta com apenas 157 bancos —  dos quais cinco concentram, sozinhos, mais de 70% dos ativos do  mercado.

Embora tal concentração bancária tenha se revelado um  fenômeno mundial, evidenciado pela crise financeira, a comparação com  outros países comprova a urgência que temos em aperfeiçoar o setor no  Brasil. Nos Estados Unidos, por exemplo, há 6.529 instituições, ou um  banco para cada 47,3 mil habitantes.

Até os nossos pares  latino-americanos são mais competitivos. Enquanto a média brasileira é  de um banco para cada 1,2 milhão de habitantes, na Argentina há uma  instituição para cada 527,6 mil habitantes; no Chile, uma para cada  686,3 mil habitantes.

Como a crise deixou evidente, a concentração bancária brasileira não torna necessariamente o mercado financeiro mais sólido.

O  fenômeno da concentração bancária, marcado por sucessivas fusões e  aquisições, afeta diretamente as pequenas e médias empresas, pois são os  agentes econômicos mais dependentes dos bancos de nicho. O middle  market é responsável por mais de 56% dos empregos gerados na economia a  cada ano, segundo dados do Ministério do Trabalho. Um segmento tão  expressivo, portanto, precisa de incentivos para crescer.

Quem  atende melhor essa demanda são os bancos pequenos e médios, pois têm  mais expertise na oferta de produtos direcionados. Por conta de um  atendimento pessoal e especializado, as instituições financeiras menores  conseguem acompanhar as transformações que seus clientes enfrentam ao  longo de todo o processo de maturação dos negócios. Com isso, assumem um  compromisso de longo prazo com as empresas, contribuindo para a  evolução do mercado.

Segundo dados do Banco Central, somente nos  últimos três anos perdemos cinco bancos médios brasileiros para o  movimento de fusões e aquisições. Hoje, o país conta com 34 instituições  desse porte. O dado requer atenção, pois a tendência é que o fenômeno  se estenda com o enrijecimento das normas que regem o sistema  financeiro.

Somente a pulverização da oferta de crédito pode  elevar a concorrência entre os bancos e, dessa forma, reduzir o custo de  investimento das empresas que mais dependem de recursos. Afinal, mais  importante do que simplesmente crescer, é garantir que o crescimento do  país se mantenha no longo prazo. A atuação dos bancos de pequeno e médio  porte converge com essa fundamental missão.

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