Repórter Nordeste

Os roçados de Alagoas desafiam as usinas e seus gigantes canaviais

A crise do setor sucroalcooleiro está mudando a imagem dos canaviais. Aos poucos, o quê os olhos testemunharam por séculos- incluindo a queima da palha da cana, terra arrasada pela destruição do meio ambiente e o semi-escravagismo herdado do Brasil colonial- vai sendo substituído por agricultores familiares e uma extraordinária produção de abacaxi, inhame, macaxeira, melancia, feijão, laranja, batata doce e outras culturas, em áreas dominadas pelos canaviais.

A colheita ainda é muito modesta, se comparada à grandeza das lavouras da cana, mas as terras antes dominadas quase na sua totalidade pelo imenso deserto verde testemunham uma reação inédita na história de Alagoas, cujo objetivo converge a um modelo de policultura (o oposto da monocultura).

Capela é um dos muitos exemplos. A Prefeitura arrendou 4 áreas das usinas Capricho e João de Deus, as duas fechadas. Entregou tarefas de terras a pequenos agricultores, muitos deles fornecedores de cana de açúcar endividados por atrasos nos pagamentos das usinas.

Em parceria com a Emater, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), eles produzem macaxeira, inhame, feijão, milho e verduras.

O PAA, do Governo, e o PNAE compram a produção, que também abastece a feira do município e ainda é transportada, com ajuda da Prefeitura, para a Ceasa, em Maceió.

Desafio do município, diz o secretário de Agricultura, Luiz Antônio de Almeida Silva, o Tonho da Pimenta, é organizar o cultivo de culturas de ciclo mais longo, como macaxeira, inhame, folhas (alface, couve, pimentão, tomate) à beira do rio Paraíba.

Também estão foram distribuídos 30 mil alevinos. Um dos projetos é a construção de uma casa de farinha, para aproveitar a produção de mandioca; uma casa de bolo e; uma fábrica de sacola ecológica, com os restos da macaxeira. “É um produto que se decompõe em menos tempo e preserva a natureza”, diz o secretário.

Capela: Terras de usinas foram arrendadas pela Prefeitura e viraram riqueza a pequenos agricultores

Toda a produção hoje é feita sem uso de agrotóxicos e também beneficia trabalhadores rurais sem terra que ocupam áreas ociosas enquanto esperam que as terras sejam destinadas à reforma agrária.

Gedalva dos Santos é uma das atendidas. “Antes eu bebia bastante e não tinha emprego. Hoje, eu tenho terra e produzo batata doce, feijão e macaxeira”. A produção é comprada pelo município. Ela planta em 2 tarefas de terra.

Em Pilar, 700 famílias são atendidas pela Secretaria de Agricultura no programa “Plantando o Futuro”. Os moldes são semelhantes aos de Capela: as famílias recebem lotes com dois mil metros quadrados para plantar hortaliças e legumes.

A produção vai para as escolas. O Governo cedeu o trator, a grade aradora e os equipamentos. Outras cidades seguem caminhos semelhantes. Ano passado foram R$ 14,8 milhões investidos do Fundo de Erradicação e Combate à Pobreza (Fecoep) destinados a agricultura familiar. Em 3 anos e 5 meses, foram entregues 223 tratores para este mesmo fim.

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