
Desde o primeiro dia, percebo nas falas o indício de juízo de valor eivado de preconceito de gênero e classe, apresentados como elementos decisórios na influenciação da opinião do tribunal do júri.
Mas com ênfase na questão de gênero, aquele espaço pleno de características dessa nossa sociedade, escancara todos os preconceitos que a mulher suporta, enquanto ao homem ainda é permitido o desfrute de vários corpos.
Termos utilizados para mostrar ao corpo de jurado e ao público presente no intuito de culpabilizar a também vítima, Suzana Marcolino – carregam a vileza do machismo que ainda orienta tantas pessoas ditas letradas e cultas, exibindo anéis de bacharéis.
Desqualificar a vítima já é praxe, principalmente quando a mesma não pode mais fazer a própria defesa, ou seja, está morta.
Apelar aos arquétipos que regem o inconsciente da nossa sociedade pseudo-moralista, é estratégia que precisa ser percebida, não apenas pelos envolvidos na questão, mas por todos nós, que somos cidadãos e cidadãs e por isso mesmo, amanhã, poderemos estar passando pelos assentos de um tribunal.
Esta questão, que mantém sua força de influenciação apesar de todos os avanços conseguidos pela dita liberalidade dos corpos, ainda é mantida na manga da fala grosseira, machista, intencionalmente opressora, como ponto forte para ser usado contra vítimas do sexo feminino, oportunamente.
Os termos pejorativos e referências desrespeitosas a Suzana Marcolino não vieram à baila apenas na boca de homens, mas inclusive, em falas de outras mulheres. Ou seja, nós mulheres, quando convém, ainda reforçamos os preconceitos de gênero contra nós mesmas.
A partir dessa constatação, que as poetisas e militantes não nos ouçam, mas Alagoas também caminha a passos lentos, na percepção da igualdade de direitos entre ambos os sexos.