EFE
O número dois do Exército Livre Sírio (ELS), Malek Kurdi, negou nesta terça-feira em declarações à agência EFE que o regime esteja retirando suas tropas e assegurou que a única ação empreendida foi mudar de lugar seus tanques em algumas cidades. De acordo com o plano proposto pelo mediador internacional Kofi Annan, o regime de Bashar al-Assad e os opositores devem iniciar um cessar-fogo nesta terça-feira.
Segundo a oposição, morreram pelo menos 12 pessoas devido à repressão nesta terça-feira, apesar de o ministro das Relações Exteriores sírio, Walid al-Moualem, ter afirmado em Moscou que Damasco já recuou tropas em algumas províncias, justo no dia em que expira o prazo para cumprir o plano de paz do enviado internacional Kofi Annan.
“O Exército nem recuou nem vai recuar suas tropas. Conhecemos suas mentiras à comunidade internacional e continua com seus massacres, detenções e ataques a cidades”, denunciou Kurdi. Mesmo assim, ele reconheceu que hoje as operações de combate lançadas pelos soldados governamentais são de menor escala, embora “haja algumas detenções e existam preparativos para uma ampla operação que pode acontecer em qualquer parte”.
Na visão do militar desertor, o Exército de Bashar al-Assad considera que agora o ELS está menos forte e por isso tentará lançar um ataque contra eles. Segundo Kurdi, o ELS não realizou nenhuma operação hoje, “manteve a calma e só respondeu aos ataques do Exército sírio em Aleppo (norte), Hama (centro) e Deraa (sul)”.
“As tropas de Bashar al-Assad estão tentando invadir bairros de alguns povoados distantes e entraram em lugares onde há ativistas. O ELS só se defende e nunca desenvolveu uma operação que não fosse para defender o povo dos “shabiha” (atiradores) que assassinam cidadãos”, indicou.
Os opositores Comitês de Coordenação Local denunciaram que pelo menos 12 pessoas morreram hoje, entre elas quatro mulheres e três crianças, durante bombardeios do regime contra os bairros de Jalidiya e Bayada, no bastião opositor de Homs, no centro do país.
Os Comitês acrescentaram que as forças do regime irromperam na localidade de Sanamain, na província sulina de Deraa, onde prenderam dezenas de ativistas. Nessa província, vários oficiais da brigada 33 do Exército desertaram hoje após um violento bombardeio contra a localidade de Mesamiya, apontou esse grupo.
Enquanto isso, o também opositor Observatório Sírio de Direitos Humanos informou a morte de seis soldados em um ataque que teve como alvo as forças do regime entre os povoados de Mesada e Merqada, na província oriental de Hasaka. As autoridades sírias por enquanto não confirmaram essas baixas.
O plano de paz de Annan estipula o fim da violência por parte de todos os envolvidos, a retirada das forças armadas das cidades e o restabelecimento da autoridade do Estado em todo o território. Tanto o regime sírio como o ELS têm até esta terça-feira para começar a aplicar essa iniciativa e retirar as tropas das cidades, e até o dia 12 para pôr fim de forma definitiva às hostilidades.
Cessar-fogo
Mais cedo, o ministro das Relações Exteriores síria, Walid al-Moualem, afirmou que o governo de Damasco já retirou tropas de algumas províncias do país. “Já retiramos certas unidades militares de algumas províncias sírias”, assinalou. Moualem ainda afirmou que a Síria vem sofrendo com um “constante aumento da atividade de grupos armados” em distintas regiões do país.
Damasco de Assad desafia oposição, Primavera e Ocidente
Após derrubar os governos de Tunísia e Egito e de sobreviver a uma guerra na Líbia, a Primavera Árabe vive na Síria um de seus episódios mais complexos. Foi em meados do primeiro semestre de 2011 que sírios começaram a sair às ruas para pedir reformas políticas e mesmo a renúncia do presidente Bashar al-Assad, mas, aos poucos, os protestos começaram a ser desafiados por uma repressão crescente que coloca em xeque tanto o governo de Damasco como a própria situação da oposição da Síria.
A partir junho de 2011, a situação síria, mais sinuosa e fechada que as de Tunísia e Egito, começou a ficar exposta. Crise de refugiados na Turquia e ataques às embaixadas dos EUA e França em Damasco expandiram a repercussão e o tom das críticas do Ocidente. Em agosto a situação mudou de perspectiva e, após a Turquia tomar posição, os vizinhos romperam o silêncio. A Liga Árabe, principal representação das nações árabes,manifestou-se sobre a crise e posteriormente decidiu pela suspensão da Síria do grupo, aumentando ainda mais a pressão ocidental, ancorada pela ONU.
Mas Damasco resiste. Observadores árabes foram enviados ao país para investigar o massacre de opositores, sem surtir grandes efeitos. No início de fevereiro de 2012, quando completavam-se 30 anos do massacre de Hama, as forças de Assad iniciaram uma investida contra Homs, reduto da oposição. Pouco depois, a ONU preparou um plano que negociava a saída pacífica de Assad, mas Rússia e China vetaram a resolução, frustrando qualquer chance de intervenção, que já era complicada. De acordo com cálculos de grupos opositores e das Nações Unidas, pelo menos 9 mil pessoas já morreram desde o início da crise Síria.








