Opinião: Pandemia reforça que o corpo do outro é território afetivo

Fernando Tenório é psiquiatra
O corpo do outro é um território afetivo. É destino dos nossos desejos ou apenas lugar para satisfazer desejos. Também nos vale como filtro, sendo capaz de examinar o que se passa dentro de nós de modo inconsciente. Não há mentiras diante do corpo. Ele é capaz mudar de desejos, afetos e destinos.

O corpo do outro é um lugar de reconhecimento do nosso próprio corpo. Da nossa própria existência. Os afetos também podem ser capazes de destinar coisas ruins. A raiva, o ódio, o preconceito estão ali. O corpo pode ser símbolo narcísico. Pode ser ostentado. Pode ser invejado. Pode ter valor. Pode ser uma ameaça.

Com essa loucura toda de uma pandemia que se propaga pela proximidade, pela troca, pelo corpo estranho e pelo corpo tão conhecido; o corpo do outro tornou-se prioritariamente uma ameaça. Ele exige uma distância ainda maior do que a usual. O corpo é um perigo, vetor do caos, da morte, tornando-se o significante do medo.

O corpo do outro é algo a ser evitado – não que isso já não existisse numa sociedade tão desigual e cada vez mais apartada por escolha própria. Mas agora já não há escolha. Até o corpo dos que se acham iguais também é um território proibido. Os corpos dos que amamos também nos causam terror: eles são capazes de tombar por um vírus desconhecido e são capazes de nos fazer tombar num encontro desafortunado.

O corpo dos amantes ainda buscavam ser decifrados quando isso tudo começou. Os encontros tiveram de ser pausados e coube a imaginação terminar aquilo que dois pedaços de carne começaram. Os corpos ainda eram caminhos desconhecidos, passagens a serem percorridas, mas tiveram que encontrar a distância como uma diretriz. Um hiato. E um hiato pode pode mudar tudo. Os corpos dos que há anos se conhecem e se tocam sem tantos pudores agora mostram que guardam outros segredos que só o silêncio e o tempo são capazes de revelar.

O corpo todo furado. Não de balas como antes. Por ora, ele é vazado pela dualidade, pelo risco, pela noção de que algo concreto pode acontecer a partir de encontros e esbarrões tão fluídos. O corpo todo inteiro. Não com as certezas de antes. Por ora, ele é inteiro por puro instinto de sobrevivência.

O corpo não mudou. Ou talvez até tenha mudado. O que não mudou é que o medo e o desejo continuam a duelar quando dois corpos se encontram.

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