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Ode natalina a Nô Pedrosa

Ele quando andava, parecia flutuar nas brincadeiras combinadas com o vento, e eu o admirava, estendendo com o olhar o carinho de quem conhecia seu ritmo desde outros carnavais, era o livre Nô Pedrosa que deslizava pelas calçadas, no bairro de Mangabeiras, onde ele morava e onde por algum tempo eu também morei.

Foi em um Natal que o arrancaram da passarela de cimento frio, alvejado entre moradores das ruas, seus escolhidos parceiros, aos quais dedicou os saberes que acumulou e por eles teve a audácia de denunciar a existência de um grupo de extermínio destes corpos ao relento, na capital de Alagoas.

A voz intelectualizada daquele homem magro falava com sabedoria sobre o lixo jogado para baixo do tapete, sobre a limpeza da cidade que os canos assassinos faziam.

No Natal de 2017 silenciaram Walfrido Pedrosa de Amorim, jogando sobre ele o mesmo manto que denunciava, após uma série de assassinatos de moradores de rua em Maceió, e o mártir da miséria institucionalizada morreu abraçando o chão da desdita que incomoda o possuidor, despossuído de bens materiais.

A dor fina que senti ao saber que aquele ancião querido cumprira a sina imposta, ainda permanece intocada. Assim como a impunidade e o silenciamento sobre o ato que nos privou de suas piruetas combinadas com o vento nas calçadas, permanecem firmes.

Em Alagoas, quando ninguém sabe, é porque todos conhecem a resposta.

Que este texto de natal seja uma homenagem singela a Nô Pedrosa, o anarquista que carregou na pouca carne as mazelas de um sistema canalha, que mata e finge apurar o crime.

Hoje é Natal, e os moradores das ruas continuam sendo jogados nas valas do abandono, porque nos sistemas de poder, nunca há lugar para eles.

Que dos altiplanos, Nô Pedrosa seja a estrela de maior brilho rasgando o céu da hipocrisia humana.

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