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Obscurantismo social

Carlos Alexandre- Correio Braziliense

As declarações agressivas do deputado Marco Feliciano e da cantora Joelma sobre homossexualidade, política e religião abriram as portas de um debate de baixíssimo nível para a opinião pública e prestam um desserviço à natural evolução da sociedade brasileira. Os sucessivos protestos contra a nomeação do pastor à presidência da Comissão de Direitos Humanos e o repúdio à teoria da artista de comparar gays com drogados são a resposta óbvia de que opção sexual, questão racial e dependência química não podem — mais — ser tratadas com obscurantismo, intolerância e superficialidade.

O primeiro problema a pesar sobre Joelma e Feliciano reside no fato de que ambos são personalidades públicas. Precisam entender, por conseguinte, que têm por obrigação elaborar opiniões mais consistentes, ainda que polêmicas, sobre assuntos de interesse da sociedade. Antes de formular um juízo, deveriam considerar todos os pontos de vista e não emitir uma palavra unilateral e limitada, baseada tão somente em fundamentalismo religioso.

O pastor foi eleito pelo voto evangélico, mas esquece-se de que o mandato lhe foi concedido por um poder laico, a Justiça Eleitoral, e de que exerce esse mesmo mandato em outra instituição laica — a Câmara dos Deputados. O evangelizador desconsidera também a tradição da Comissão de Direitos Humanos de respeitar as diferenças. É fortemente recomendável, pois, que Feliciano diminua o fervor de suas crenças e evite palavras e atos intolerantes, como mandar prender manifestante e dizer que o colegiado que preside no momento é “dominado por Satanás”.

Valeria igualmente a Joelma fazer um exame de autoconsciência. Perceberá que a música, as roupas, o estilo, a mensagem que compõem sua persona também são alvo de críticas, muitas delas desrespeitosas. Com tantas fragilidades explícitas, não lhe convém atirar pedras.

Feliciano e Joelma teriam papéis mais relevantes nesse contexto inflamado se tentassem, cada qual em sua função, buscar um entendimento, e não partir para uma cruzada estéril. O Brasil precisa de esclarecimento, não de obscurantismo.

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