Aquele que alertou o mundo sobre a interferência da alma na interpretação dos ventos, fez sua passagem. Luís Fernando Veríssimo disse que “os tristes acham que o vento geme . Os alegres acham que ele canta”. E hoje o vento eterno o manterá na lista dos que fizeram do caminho um aprendizado partilhado, interferindo no ritmo da subjetividades através do bisturi afiado da ironia fina, carregada de sabores e sentidos ideológicos libertários. Seus contos arrastavam magia:
“Numa terra muito distante…a princesa linda, independente e cheia de auto estima.
Ela se deparou com uma rã enquanto contemplava a natureza no maravilhoso lago de seu castelo que era relaxante e ecológico…
Então, a rã pulou no seu colo e disse: linda princesa, eu já fui um príncipe muito bonito.
Uma bruxa má lançou-me um encanto e transformei-me nesta rã asquerosa.
Um beijo teu, no entanto, há de me transformar de novo num belo príncipe e poderemos casar e
constituir lar feliz no teu lindo castelo.
A tua mãe poderia vir morar conosco e tu poderias preparar meu jantar, lavar as minhas roupas, criar nossos filhos e seríamos felizes para sempre…
Naquela noite, enquanto saboreava, pernas de rã sautée, acompanhada de um cremoso molho acebolado e de um finíssimo vinho branco, a princesa sorria, pensando consigo mesma:
– Eu, hein?… nem morta!!
Luís Verissimo”
Do corpo perecível que humaniza e iguala, ao potente cantar dos espíritos que não se acomodam na própria liberdade e expandem ares de subversão inteligente, Veríssimo deixa o mundo e de modo particular, o Brasil, em forte sentimento de orfandade.
Sua morte deixou aquela sensação de que a beleza diminuiu nestas paragens, justamente quando parece mais caótica, mais instigada à queda no abismo da ignorância letal. Contudo, não será missão das grandes almas salvar nada nem ninguém. Basta a contribuição a um pensamento novo, o desalojar de certezas pérfidas e emboloradas, gerando possibilidades de evolução política, para que cumpram os rasgos de felicidade a si mesmas.
Voeja Veríssimo até o abraço dos que precederam no retorno, e certamente celebram tua volta e teu legado.
Nem precisas olhar para trás, porque na imortalidade tudo é presença e constância, na energia plena do amor, única riqueza que ninguém pode roubar.
Enlutados e agradecidos. O povo que sabe que é, te recomenda ao céu.




